{"id":2336,"date":"2026-08-18T16:48:21","date_gmt":"2026-08-18T16:48:21","guid":{"rendered":"http:\/\/jlacs-travesia.online\/?p=2336"},"modified":"2026-10-07T15:09:35","modified_gmt":"2026-10-07T15:09:35","slug":"a-performatividade-mitica-da-antipolitica-moda-e-mimese-na-extrema-direita-the-mythical-performativity-of-anti-politics-fashion-and-mimesis-on-the-brazilian-far-right","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/jlacs-travesia.online\/pt-br\/2026\/08\/18\/a-performatividade-mitica-da-antipolitica-moda-e-mimese-na-extrema-direita-the-mythical-performativity-of-anti-politics-fashion-and-mimesis-on-the-brazilian-far-right\/","title":{"rendered":"A performatividade m\u00edtica da antipol\u00edtica: moda e mimese na extrema-direita The mythical performativity of anti-politics: fashion and mimesis on the Brazilian far right"},"content":{"rendered":"<p><em>Este ensaio analisa como o discurso da antipol\u00edtica \u00e9 utilizado pela extrema-direita brasileira para construir o modelo de performatividade m\u00edtica a fim de promover o ide\u00e1rio conservador, mobilizando engajamentos no campo do sens\u00edvel. Intuitivamente, ela recorre em suas narrativas \u00e0 ucronia, elemento central no fen\u00f4meno da moda, para fabular temporalidades que fundem presente, passado e futuro. Ao utilizar do mecanismo mim\u00e9tico para instaurar mudan\u00e7as est\u00e9ticas no imagin\u00e1rio social, ela se apropria de algumas estrat\u00e9gias de estiliza\u00e7\u00e3o neofascistas remodelando as sensibilidades para difundir a ideia de renova\u00e7\u00e3o cultural. A utiliza\u00e7\u00e3o de elementos m\u00edticos relacionados ao ideal nacionalista se torna uma estrat\u00e9gia de distin\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, mobilizando a dimens\u00e3o est\u00e9tica na a\u00e7\u00e3o. A a\u00e7\u00e3o vestimentar adquire relev\u00e2ncia pol\u00edtica no espa\u00e7o p\u00fablico pela (re)semantiza\u00e7\u00e3o dos objetos, despertando o comportamento mim\u00e9tico na medida em que difunde pautas e convic\u00e7\u00f5es particularizadas a respeito de uma nova pol\u00edtica que orienta o imagin\u00e1rio cultural brasileiro. Ao longo do artigo, pretende-se analisar como o comportamento mim\u00e9tico, t\u00edpico do fen\u00f4meno da moda, contribui para a reciprocidade emocional animando nas massas o p\u00e1thos pol\u00edtico a partir de linguagens ic\u00f4nicas que apresentam o novo regime de visibilidade da extrema-direita. <\/em><\/p>\n<p><strong><em>Palavras-chave: <\/em><\/strong><em>perfomatividade m\u00edtica; antipol\u00edtica; moda; mimese<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>This essay examines how the Brazilian far right has used the discourse of anti-politics to construct a model of mythical performativity and promote conservative ideology by mobilizing the dimension of the sensible. Intuitively, it uses uchronia, a central element of fashion as a cultural phenomenon, in its narratives to fabulate temporalities that merge present, past and future. By using mimesis to provoke aesthetic transformations in the social imaginary, the far right appropriates various neofascist stylization strategies, reshaping sensibilities to disseminate the idea of <\/em><em>cultural renewal. The use of mythical elements related to nationalism functions as an aesthetic strategy of ideological differentiation in which clothing acquires political relevance in public space through a (re)semantization of objects, eliciting a mimetic behaviour as it disseminates its specific agendas and convictions regarding a new political paradigm guiding the Brazilian cultural imagination. The essay focuses on how mimetic behaviour, typical of fashion as a phenomenon, contributes to establishing emotional reciprocity by encouraging political pathos among the masses through iconic languages <\/em><em>that present the new regime of visibility of the far right.<\/em><\/p>\n<p><strong><em>Keywords<\/em><\/strong><em>: mythical performativity; anti-politics; fashion; mimesis<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: right;\">Outra frui\u00e7\u00e3o (outras margens): ela consiste em despolitizar o que \u00e9 aparentemente pol\u00edtico, e em politizar o que aparentemente n\u00e3o o \u00e9. _ mas n\u00e3o, vejamos, a gente politiza o que <em>deve <\/em>ser politizado e \u00e9 tudo. <em>Roland Barthes<\/em><\/p>\n<\/blockquote>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Barthes (1999, 58) diz que toda escolha pol\u00edtica \u00e9 forma de frui\u00e7\u00e3o. Ele utilizou a ideia de frui\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente para estudar como as palavras constroem sentidos, mas, sobretudo, para pensar como os sentidos constroem a vida. Esses sentidos, de acordo com o contexto cultural e o instante dos acontecimentos hist\u00f3ricos no tempo, deslocam a experi\u00eancia da frui\u00e7\u00e3o para <em>outras margens<\/em> que, como ele mesmo diz, podem se fixar \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda. Isso delimita os contornos do sens\u00edvel que determinam o gozo, a perda, a fenda, o corte ou a defla\u00e7\u00e3o. Trata-se, neste caso, de se observar o estado sutil da forma\u00e7\u00e3o dos discursos. Como explica Barthes (1977, 21), a escrita \u00e9 constitutiva no fen\u00f4meno da moda porque <em>fora da palavra n\u00e3o h\u00e1 moda total<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 <em>moda essencial<\/em>. O vestu\u00e1rio real constr\u00f3i uma rede de sentidos da <em>moda essencial <\/em>e isso se deve ao fato de a moda estar al\u00e9m do vestu\u00e1rio. Ela se situa no imagin\u00e1rio coletivo na medida em que se constitui como imagem ou como fen\u00f4meno social. A palavra da moda, que visa atuar no imagin\u00e1rio com o objetivo de modelar os costumes e a apar\u00eancia, \u00e9 a primeira rea\u00e7\u00e3o imediata dos seus signos. Investir o corpo de signos estimularia o confronto com a alteridade estimulando as correspond\u00eancias para a produ\u00e7\u00e3o de sentido e significa\u00e7\u00f5es. Quando o vestu\u00e1rio \u00e9 investido pela palavra pol\u00edtica, ele nos conduz a uma experi\u00eancia transgressiva do texto nos levando para a <em>outra margem: <\/em>a frui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O estudo da dimens\u00e3o pol\u00edtica do vestu\u00e1rio, a partir das pautas da extrema-direita, nos d\u00e1 pistas para compreender que a frui\u00e7\u00e3o de significado das coisas, das imagens e dos objetos pode se impor como um jogo do sens\u00edvel no qual o sentido n\u00e3o est\u00e1 garantido e nem \u00e9 fixo. O vestu\u00e1rio-real da extrema-direita constr\u00f3i uma l\u00edngua e, a partir dela, uma gram\u00e1tica que institui as normas sint\u00e1ticas de comunica\u00e7\u00e3o. Dessa nova l\u00edngua, derivam as estruturas da sintaxe morfol\u00f3gica que atualizam comunica\u00e7\u00e3o vestimentar, transformando-a em um acontecimento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de uma d\u00e9cada o Brasil est\u00e1 sob os efeitos da fabrica\u00e7\u00e3o m\u00edtica da hist\u00f3ria. A \u00a0extrema-direita brasileira utiliza o termo <em>guerra cultural <\/em>para instaurar um novo ide\u00e1rio relativo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de narrativas <a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. Por este motivo, n\u00f3s podemos comparar este fen\u00f4meno a um modelo da chamada <em>cauda longa da moda <\/em>(Anderson, 2006)<em>. <\/em>A principal caracter\u00edstica deste fen\u00f4meno \u00e9 disseminar ideias pela no\u00e7\u00e3o do cont\u00e1gio, exercendo um tipo de monop\u00f3lio no processo comunicativo semelhante \u00a0\u00e0s estrat\u00e9gias das guerras qu\u00edmicas ou biol\u00f3gicas. A dissemina\u00e7\u00e3o de conte\u00fados da chamada \u201cpauta de direita\u201d se d\u00e1 pela intensa utiliza\u00e7\u00e3o de dispositivos de alta capilaridade para a difus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, alimentando potencialmente o mercado do vestu\u00e1rio pela venda de diversos objetos que portam mensagens r\u00e1pidas e de f\u00e1cil assimila\u00e7\u00e3o. O exerc\u00edcio de estilo nas manifesta\u00e7\u00f5es da extrema-direita reativa projetos de reforma social pr\u00f3prios de regimes totalit\u00e1rios, configurando uma \u201cutopia regressiva\u201d que instrumentaliza afetos do passado, elevado, aqui, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de mito glorioso para sustentar cren\u00e7as ideol\u00f3gicas no presente e fabular o futuro pol\u00edtico do pa\u00eds. <a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> A roupa seria um dos meios de dissemina\u00e7\u00e3o deste ide\u00e1rio conservador, mas igualmente os acess\u00f3rios, como por exemplo, o bon\u00e9 utilizado por Donald Trump nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2024 cuja mensagem dizia: \u201cmake America great again\u201d (MAGA).<\/p>\n<p>Recentemente, popularizou-se o termo \u201cbatalha dos bon\u00e9s\u201d devido ao fato do acess\u00f3rio ter sido utilizado por pol\u00edticos para comunicarem ideias a respeito de suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas <a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>. Uma T-shirt \u00e9 um suporte importante porque, al\u00e9m de seu baixo custo de produ\u00e7\u00e3o, ela propicia a estigmergia das mensagens por interm\u00e9dio da pr\u00e1tica do <em>do it yourself <\/em>(<em>DIY<\/em>)<em>. <\/em>\u00c9 neste lugar fora das institui\u00e7\u00f5es, dos fatos e das narrativas oficiais (reais) que as disson\u00e2ncias cognitivas reconfiguram a hist\u00f3ria. A camiseta e demais objetos do vestu\u00e1rio se tornam uma p\u00e1gina em branco na qual a frui\u00e7\u00e3o da palavra pol\u00edtica se potencializa. A instrumentaliza\u00e7\u00e3o do vestu\u00e1rio \u00e9 uma estrat\u00e9gia eficaz porque ela mobiliza o fen\u00f4meno da moda e, a partir dele, a dimens\u00e3o greg\u00e1ria. \u00c9 pelo processo de mimese que a propaganda se torna um dispositivo eficaz de propaga\u00e7\u00e3o da ideologia. Bruneteau e Hourmant (2022) defendem que a moda possui uma for\u00e7a narrativa eficaz na difus\u00e3o das pr\u00e1ticas coercitivas por doar ao vestu\u00e1rio um papel pol\u00edtico importante ao mobilizar corpo, est\u00e9tica e distin\u00e7\u00e3o. Esta opera\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental para produzir e reproduzir ideologias de grupos dominantes contribuindo efetivamente para partilha de um sentimento de unidade pela ideia de uma identidade coletiva. A moda se torna, portanto, um campo em que agentes disputam ideias ou as consomem compartilhando-as massivamente. Conforme Adverse (2024, p.365), a moda expressa como a pr\u00e1xis criativa e o pensamento s\u00e3o impactados por estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00f5es orientadas pelos acontecimentos hist\u00f3ricos. Os estilos est\u00e3o associados aos modos de exist\u00eancia que transformam a vida cotidiana e, para Mac\u00e9 (2016, p.35), ele seria respons\u00e1vel por formar um senso de comunidade estruturando uma \u00e9tica e uma pol\u00edtica. O mimetismo provocado pelos fen\u00f4menos de massa, dentre eles a moda, engajam os valores que alicer\u00e7am a no\u00e7\u00e3o de uma partilha de experi\u00eancias e de uma vida em comum. Gustave Le Bon\u00a0(2018, p. 62) afirma que a imagina\u00e7\u00e3o das multid\u00f5es se constitui quando as ideias passam a se fundamentar em imagens. O autor denomina esse processo de \u201cideias-imagens\u201d, isto \u00e9, constru\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas capazes de organizar o esp\u00edrito cr\u00edtico e de se converter em discursos compartilh\u00e1veis no \u00e2mbito coletivo. A cultura do vestir pode ser compreendida sob essa perspectiva, uma vez que se configura como uma forma de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o verbal que sintetiza, no campo ideol\u00f3gico, a maneira pela qual um povo imagina e representa a si mesmo. Nesse contexto, a extrema-direita se apropriou da camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira como dispositivo simb\u00f3lico de uma pol\u00edtica afetiva que, segundo\u00a0Paolo Demuru\u00a0(2024), revitalizou o \u00f3dio ao advers\u00e1rio pol\u00edtico por meio de uma a\u00e7\u00e3o vestimentar. O agenciamento de objetos do vestu\u00e1rio cria uma <em>outra margem <\/em>da pol\u00edtica a partir da capacidade de manipular os signos pela sem\u00e2ntica da apar\u00eancia. Nesse caso, a apari\u00e7\u00e3o do sentido que se faz presente nas roupas provoca uma interven\u00e7\u00e3o na realidade, criando um jogo de visibilidade pelo estilo na cultura do vestir. Compreendemos a <em>outra margem <\/em>como o lugar, por excel\u00eancia, onde se produz a ideologia. A ideologia transfigura a <em>frui\u00e7\u00e3o<\/em> em experi\u00eancia m\u00edtica, fazendo abrir uma fenda na verdade.<\/p>\n<p>Estes pontos s\u00e3o fundamentais para compreendermos as formas contempor\u00e2neas da antipol\u00edtica no Brasil, ressaltando, em particular, a produ\u00e7\u00e3o da linguagem da extrema-direita brasileira. A partir da apropria\u00e7\u00e3o da camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, os apoiadores da classe pol\u00edtica que representa o projeto da extrema-direita mobilizam os afetos que externalizam, por interm\u00e9dio do esporte, as distens\u00f5es e conflitos do nosso espa\u00e7o social. Em particular, pela forte cis\u00e3o dos debates p\u00fablicos em torno de temas como inclus\u00e3o social, racismo e g\u00eanero, expressando os avan\u00e7os ou retrocessos no processo de moderniza\u00e7\u00e3o social do pa\u00eds. Como relata Rodrigues (2024, p.242), o futebol representa a forma\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio social brasileiro, logo, ele est\u00e1 profundamente associado\u00a0 aos valores que erigem a identidade nacional. Atualmente, h\u00e1, no espa\u00e7o social uma busca pela afirma\u00e7\u00e3o de valores que possam representar uma ressignifica\u00e7\u00e3o de uma pretensa mentalidade nacionalista a partir de valores conservadores que contextualizam as pautas da extrema-direita como a defesa pelos valores da fam\u00edlia, de uma orienta\u00e7\u00e3o crist\u00e3 relacionada aos valores das religi\u00f5es neopentecostais, como por exemplo, pela defesa da divisa em forma de ora\u00e7\u00e3o: \u00a0<em>Brasil acima de tudo. Deus acima de todos!<\/em> <a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a>Portar a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira se torna, eminentemente, um jogo especular entre o grupo que mimetiza e replica os valores que representam a defesa de uma tradi\u00e7\u00e3o. Esta a\u00e7\u00e3o adentra a cultura da moda porque\u00a0 expressa a forma\u00e7\u00e3o do <em>ethos<\/em> cultural dessa comunidade. Nesse contexto, o uso da camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira se transforma em um jogo especular de identifica\u00e7\u00e3o coletiva, no qual determinados grupos mimetizam e reproduzem valores associados \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o orientada pela manuten\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios morais conservadores. A camiseta verde e amarela forja simbolicamente a linguagem conservadora em contraponto ao desenvolvimento de uma agenda <em>woke <\/em>que, segundo a ideologia pol\u00edtica apresentada pelos partidos da extrema-direita, orientam a forma\u00e7\u00e3o das mentalidades por projetos progressistas da esquerda que enfraquecem a no\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia nuclear pregando a equidade entre g\u00eaneros. Apesar da dimens\u00e3o abstrata da apropria\u00e7\u00e3o da camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, o que est\u00e1 em quest\u00e3o foi o fato de a camiseta j\u00e1 ter sido utilizada para repensar as pol\u00edticas culturais no pa\u00eds. Para Ribeiro e Silva (2023, p.72), o universo do futebol se revela como espa\u00e7o privilegiado para problematizar as quest\u00f5es de grupos historicamente marginalizados <a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a>. Por este motivo, o projeto de design tem criado diretrizes para vincul\u00e1-la em diferentes gera\u00e7\u00f5es \u00e0 express\u00e3o da identidade brasileira. A partir do fen\u00f4meno da moda, examinamos como atributos imag\u00e9ticos da camiseta da sele\u00e7\u00e3o que s\u00e3o utilizados para instaurar outras experi\u00eancias do sens\u00edvel no imagin\u00e1rio coletivo. A apropria\u00e7\u00e3o da camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol tornou-se \u00a0estrat\u00e9gia de difus\u00e3o do ceticismo frente \u00e0 cultura democr\u00e1tica. A estrat\u00e9gia \u00e9 clara e difundida abertamente: romper com a velha pol\u00edtica. Como resultado, o jogo de sentido rompe com o <em>p\u00e1thos da<\/em> <em>dist\u00e2ncia <\/em>compreendendo o real \u00e0s avessas ao transfigurar a crise do presente em ut\u00f3pica fabula\u00e7\u00e3o de expectativas para o futuro.<\/p>\n<h4><strong>A moda e a pol\u00edtica do sens\u00edvel: mimese, tempo e mito<\/strong><\/h4>\n<p>O Brasil vivencia uma batalha pelo dom\u00ednio das sensibilidades numa tens\u00e3o cont\u00ednua entre as margens direita e esquerda. Conforme Nunes (2022), a esfera discursiva mobilizada tanto pela direita quanto pela esquerda se estruturou, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, a partir de din\u00e2micas que integram performance identit\u00e1ria e mobiliza\u00e7\u00e3o de afetos. Para al\u00e9m do sentido de polariza\u00e7\u00e3o constantemente empregado pela m\u00eddia brasileira, o autor chama aten\u00e7\u00e3o para o abalo simb\u00f3lico produzido nos esquemas valorativos produzidos pelas experi\u00eancias subjetivas dos grupos diante da crise pol\u00edtica e social ap\u00f3s o Golpe de Estado em 2016.<\/p>\n<p>No Brasil contempor\u00e2neo, as divis\u00f5es entre direita e esquerda podem ser compreendidas a partir da articula\u00e7\u00e3o de matrizes discursivas que operam simultaneamente os planos simb\u00f3lico, afetivo e corporal. \u00c0 direita, continuamente h\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o entre os ideais liberais e as pautas conservadoras. De um lado, se acentua o pensamento neoliberal a partir do qual o Estado m\u00ednimo refor\u00e7a a no\u00e7\u00e3o do empreendedorismo individualizante movido pelo o libertarianismo econ\u00f4mico e pelo anticomunismo. Por outro lado, as demandas da extrema-direita brasileira revelam uma tens\u00e3o persistente em torno do controle do Estado, por meio do qual o plano religioso orienta a ret\u00f3rica dos costumes e sustenta a preserva\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o cultural conservadora. Embora heterog\u00eaneas, tais vertentes convergem na produ\u00e7\u00e3o de uma subjetividade pol\u00edtica ancorada na valoriza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia pessoal, na desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s media\u00e7\u00f5es institucionais e na constru\u00e7\u00e3o de inimigos pol\u00edticos. A matriz discursiva da esquerda se sedimentou pela afirma\u00e7\u00e3o de valores que defendem as pautas concernentes ao reconhecimento de direitos sociais, ao direito das minorias e \u00e0 regula\u00e7\u00e3o das desigualdades para se combater os processos de exclus\u00e3o como um horizonte mais amplo de transforma\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Para Nunes (2022), a regularidade das experi\u00eancias vivenciadas sedimentou esquemas valorativos que explicitam as tens\u00f5es decorrentes das intera\u00e7\u00f5es provocadas pelo compartilhamento de ideias. A direita utiliza uma discursividade de cunho\u00a0<em>troll<\/em>, por meio de provoca\u00e7\u00f5es pol\u00eamicas e controversas, difundidas em massa pela\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0e pelo uso intensivo de intelig\u00eancias artificiais. A esquerda, de outro modo, potencializa o campo da cultura e opera por meio de dispositivos estrat\u00e9gias discursivas para\u00a0 afirmar as pautas progressistas visando a transforma\u00e7\u00e3o das mentalidades. Como consequ\u00eancia, a arquitetura dessas discuss\u00f5es se desloca do campo social para plataformas espec\u00edficas de intera\u00e7\u00e3o, refor\u00e7ando din\u00e2micas de filtragem como parte da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o de artefatos culturais passa a definir a performatividade c\u00eanica das margens (direita x esquerda) estimulando a hipervisibilidade midi\u00e1tica. O sens\u00edvel se tornou um horizonte de disputas simb\u00f3licas que visa produzir a verdade. A difus\u00e3o em massa de textos, ideias e imagens fomenta o engajamento de produtores e leitores em outro regime de frui\u00e7\u00e3o. Se a politiza\u00e7\u00e3o de tudo nos conduz \u00e0 <em>outra margem <\/em>da frui\u00e7\u00e3o do texto, ela tamb\u00e9m engendra a perda do significado. Diz Barthes (1999, 56): \u201crepetir at\u00e9 o excesso \u00e9 entrar na perda, no zero do significado\u201d. A crise do sens\u00edvel revela o esgotamento dial\u00f3gico e discursivo das mensagens, gerando uma esp\u00e9cie de transe ao fundir vertiginosamente\u00a0 a realidade e a fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Demuru (2024, 23) descreve o sistema vestimentar da extrema-direita como \u201croupas simples\u201d pelo fato de seus militantes conseguirem transfigurar o sentido da camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol em \u00edcone da identidade nacional. No entanto, a rela\u00e7\u00e3o do sentido produzida pela extrema-direita n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples quanto se apresenta porque, a partir da apropria\u00e7\u00e3o est\u00e9tica do vestu\u00e1rio, a extrema-direita transfigura uma s\u00e9rie de s\u00edmbolos da cultura brasileira. Barthes (1977, 19) denomina esta mudan\u00e7a de leitura e de uso dos objetos vestimentares como <em>prova de comuta\u00e7\u00e3o<\/em>. Pelo interm\u00e9dio da varia\u00e7\u00e3o de sentido no processo de frui\u00e7\u00e3o do uso dos objetos do vestu\u00e1rio, profundas mudan\u00e7as cognitivas s\u00e3o produzidas no imagin\u00e1rio coletivo. Sobretudo porque a moda seria um importante dispositivo de produ\u00e7\u00e3o de mitologias, em particular, pelo fato de ser um fen\u00f4meno de altera\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 percep\u00e7\u00e3o do tempo e da narrativa hist\u00f3rica.<\/p>\n<p>Benjamin (2006, 20) nos lembra que a sensa\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a do tempo e da hist\u00f3ria desencadeada pelo fen\u00f4meno da moda seria uma <em>forma on\u00edrica do acontecimento<\/em>. A moda introduziria no seio da sociedade moderna um modelo narrativo capaz de alterar a produ\u00e7\u00e3o de significados dos fatos percebidos pela altera\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria. A moda teria o poder de modelar as consci\u00eancias pela influ\u00eancia que exerce nas mentalidades. Ela altera as narrativas para atualiz\u00e1-las continuamente no presente e para o presente. A partir disso, ela transfigura um fato hist\u00f3rico em mitologia ao sobrepor a dimens\u00e3o on\u00edrica da fantasmagoria sobre a realidade. Trata-se de provocar uma frui\u00e7\u00e3o no instante vivido arrancando as coisas do tempo para situ\u00e1-las \u00e0 margem e, pelo olhar do encantamento, alterar a percep\u00e7\u00e3o do real. Demuru (2024, 13) utiliza o termo <em>pol\u00edtica do encantamento <\/em>para examinar um fen\u00f4meno semelhante na produ\u00e7\u00e3o das narrativas conspirat\u00f3rias da extrema-direita. Por estarem cientes do <em>papel do encanto na vida p\u00fablica<\/em>, os militantes extremistas apropriam-se de linguagens para colonizarem o sens\u00edvel com fins ideol\u00f3gicos. O objetivo \u00e9 claro: produzir uma modifica\u00e7\u00e3o do sentido e dos significados culturais na produ\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria para alterar a hist\u00f3ria transformando-a em narrativa m\u00edtica.<\/p>\n<p>No centro desta disputa, vemos ser fragilizada a compreens\u00e3o conceitual e espiritual do sentido de cultura. Para Arendt (1992, 281), a cultura consiste em uma atitude de respeito, de cuidado, de preserva\u00e7\u00e3o e de admira\u00e7\u00e3o das coisas do mundo: \u201calgu\u00e9m que soubesse como escolher sua companhia entre homens, entre coisas e entre pensamentos, tanto no presente quanto no passado.\u201d Para Starling (2018, 14) este \u00e9 um m\u00e9todo de Arendt para lidar, em situa\u00e7\u00e3o de crise, com os acontecimentos inapreens\u00edveis. Ent\u00e3o, recorria ao passado para pensar com ele, sem se resignar \u00e0 nostalgia e sem ser dominada pela ilus\u00e3o cronol\u00f3gica da repeti\u00e7\u00e3o. Talvez nos seja necess\u00e1rio olhar para o passado para que se compreenda um pouco mais sobre as crises relativas \u00e0 nossa sensibilidade diante da cultura.<\/p>\n<p>A moda, por estar atrelada \u00e0 temporalidade de alguns mitos relacionados ao eterno retorno, segundo Benjamin (2006, 104), visa alimentar a produ\u00e7\u00e3o m\u00edtica de narrativas objetivando alterar o fluxo temporal dos discursos. A estrat\u00e9gia da repeti\u00e7\u00e3o em <em>looping<\/em> \u00e9 condi\u00e7\u00e3o <em>sine qua non <\/em>para a atualiza\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de suas pautas. Com isso, o que poderia ser um acontecimento transit\u00f3rio, torna-se um fen\u00f4meno de longa dura\u00e7\u00e3o. Tal como a <em>cauda longa<\/em> analisada por Anderson (2006, 11), que se caracteriza pelos acontecimentos provocados pela internet que impactam os costumes do presente transformando os h\u00e1bitos sociais. A ind\u00fastria da informa\u00e7\u00e3o cultural conectou pessoas e ideias em rede criando uma poderosa malha de difus\u00e3o de ideias. Os <em>trend topics <\/em>das redes sociais \u00e9 o exemplo mais concreto desta dilata\u00e7\u00e3o dos fatos e do tempo presente, eles sincronizam efetivamente os fen\u00f4menos e epifen\u00f4menos da sociedade. O fen\u00f4meno da moda est\u00e1 presente na tecedura desta malha porque difunde as ideias mimeticamente. Ele estimula a temporalidade c\u00edclica assumindo, por vezes, a for\u00e7a das narrativas m\u00edtico-mim\u00e9ticas. Benjamin (1994, 110) associa o comportamento mim\u00e9tico da moda \u00e0 temporalidade c\u00edclica do mito. Segundo ele, o poder mim\u00e9tico do fen\u00f4meno da moda desencadearia no imagin\u00e1rio coletivo o mesmo \u00eaxtase provocado pelos narc\u00f3ticos. Isso se explica pelo encantamento provocado pela frui\u00e7\u00e3o do mito ao repetir excessivamente o ciclo do tempo, apagando a distin\u00e7\u00e3o entre o passado e o presente. A mimese erigida pelo fen\u00f4meno da moda altera o processo perceptivo de modo a transformar em encantamento o <em>saber sens\u00edvel <\/em>produzido pelas imagens. Dentro de uma dimens\u00e3o metaf\u00edsica, o fen\u00f4meno da moda seria compreendido por Benjamin (2006) como uma experi\u00eancia do sens\u00edvel determinada pela \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre o sujeito e as coisas. Tal experi\u00eancia chegaria a abolir as fronteiras entre as palavras e as coisas, a ponto de transformar imagens em palavras e as palavras em objetos, revelando assim o car\u00e1ter m\u00e1gico e m\u00edtico da linguagem da moda.<\/p>\n<p>Essa concep\u00e7\u00e3o benjaminiana repousa na ideia do dom\u00ednio mitol\u00f3gico da moda sob a hist\u00f3ria, pois a faculdade mim\u00e9tica foi compreendida por ele como um tipo de <em>car\u00e1ter experimental da linguagem <\/em>vinculado \u00e0 constela\u00e7\u00e3o temporal. Para Benjamin (2006), as experi\u00eancias da moda na nossa sociedade representariam as fantasias mim\u00e9ticas dos elementos da hist\u00f3ria, produzindo imagens on\u00edricas no inconsciente coletivo. O passado seria reformulado pela energia mim\u00e9tica da moda, alterando a mem\u00f3ria social. Barthes (1977, 271) percebe, neste cruzamento temporal efetuado pela moda, o assassinato declarado do passado. Compreende a ambiguidade \u00e9tica do fen\u00f4meno da moda pela forma como ele ativa novos modelos de esquecimento, determinando a <em>atualidade <\/em>como uma arbitr\u00e1ria da experi\u00eancia do tempo.<\/p>\n<p>Esta naturaliza\u00e7\u00e3o do esquecimento \u00e9 respons\u00e1vel por mitificar a sincronicidade dos signos do vestu\u00e1rio. Por reinventar o passado, encantar o presente e fabular o futuro, a moda instaura a <em>ucronia <\/em>como imperativo temporal, ativando a percep\u00e7\u00e3o do tempo como fic\u00e7\u00e3o. O eterno retorno instaura a mimese como um tipo de percep\u00e7\u00e3o consciente das correspond\u00eancias entre o passado e o presente. Nesta perspectiva, o fen\u00f4meno da moda representaria um dos modos de aplica\u00e7\u00e3o da faculdade mim\u00e9tica por abrir, no dom\u00ednio das experi\u00eancias de produ\u00e7\u00e3o de sentido, uma forma de comunica\u00e7\u00e3o corp\u00f3rea entre o sujeito e as coisas mundanas. Este seria o momento no qual a frui\u00e7\u00e3o do sentido encontraria na corporeidade do <em>m\u00e9dium <\/em>o dispositivo ideal para partilhar as experi\u00eancias, o que explica a semelhan\u00e7a entre o comportamento da extrema-direita contempor\u00e2nea e os fascistas do in\u00edcio do s\u00e9culo XX. \u00c9 importante observar que, na medida em que Benjamin apresenta o sentido de <em>m\u00e9dium, <\/em>ele recorre a uma <em>faculdade <\/em>que, por interm\u00e9dio da capacidade cognitiva da consci\u00eancia, percebe conscientemente as semelhan\u00e7as. A mimese seria uma orquestra\u00e7\u00e3o do <em>saber sens\u00edvel <\/em>que orienta princ\u00edpios de mudan\u00e7as est\u00e9ticas a partir de modelos, erigindo conhecimento t\u00e9cnicos e po\u00e9ticos por interm\u00e9dio de outras maneiras de fazer, ver e julgar.<\/p>\n<p>Compreendendo esta crise do sens\u00edvel a partir de Ranci\u00e8re (2005, 31), n\u00f3s podemos tamb\u00e9m tangenciar algumas quest\u00f5es a respeito da experi\u00eancia mim\u00e9tica relacionadas \u00e0s partilhas est\u00e9ticas. A produ\u00e7\u00e3o de semelhan\u00e7as seria uma das formas da a\u00e7\u00e3o criativa, n\u00e3o sendo apenas uma imitabilidade, pois a imita\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 semelhan\u00e7a, nem reprodu\u00e7\u00e3o. A mimese seria o desdobramento das formas de cria\u00e7\u00e3o para se emancipar determinadas pr\u00e1ticas criativas. E, por isso, ela tem forte influ\u00eancia sobre o ser do sens\u00edvel. O sens\u00edvel seria o elemento que guardaria em si mesmo tanto a pot\u00eancia do pensamento quanto a do p\u00e1thos. Ele teria, de acordo com Ranci\u00e8re, a capacidade de implodir a barreira mim\u00e9tica afirmando novas singularidades do regime de representa\u00e7\u00e3o. Lembra-nos Coccia (2010, 58) que a mimese definiria a nossa <em>sensibilidade <\/em>de reconhecer e diferenciar experi\u00eancias. A capacidade de nos reconhecer em uma imagem seria aquela que nos permite, segundo Coccia, ser absorvidos pelo sens\u00edvel. O que significa, de fato, que todo vivente \u00e9, antes de tudo, uma apar\u00eancia, uma forma, uma imagem, uma figura (esp\u00e9cie). Assim, a vida estaria relacionada com um modo de presen\u00e7a, de apar\u00eancia e de apari\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As primeiras manifesta\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o de sentido unificando a cultura do vestir \u00e0 a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil tiveram o prop\u00f3sito de fazerem reconhecer as semelhan\u00e7as dos ideais republicanos <a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>. Narra Starling (2018, 217) que, no Brasil, o \u00edmpeto revolucion\u00e1rio se tornou escandaloso pela mimese do traje revolucion\u00e1rio franc\u00eas elaborada pelo alfaiate Jo\u00e3o de Deus: \u201cp\u00e9s metidos em vistosos chinelins com bico muito comprido e cal\u00e7\u00f5es apertados\u201d. Ele funcionava como um signo republicano, definindo publicamente uma maneira do indiv\u00edduo se tornar distingu\u00edvel no espa\u00e7o p\u00fablico. Sob a divisa <em>apare\u00e7a, n\u00e3o se esconda<\/em> a Conjura\u00e7\u00e3o Baiana (1798), tamb\u00e9m conhecida como Revolta dos Alfaiates, foi a express\u00e3o brasileira de como a palavra poderia fazer fluir na materialidade do t\u00eaxtil uma convoca\u00e7\u00e3o para que escravizados e mesti\u00e7os se engajassem em um movimento de transforma\u00e7\u00e3o social. Conclu\u00edmos que o <em>car\u00e1ter experimental <\/em>da linguagem do vestu\u00e1rio transforma a cultura do vestir em <em>saber sens\u00edvel <\/em>com o intuito de assumir um papel ativo na luta pela liberdade. A presen\u00e7a, a apar\u00eancia e a apari\u00e7\u00e3o afirmariam o princ\u00edpio <em>pol\u00edtico da pluralidade<\/em> (Arendt, 2002) porque tratariam n\u00e3o s\u00f3 da capacidade de reconhecer as semelhan\u00e7as, mas de produzir a conviv\u00eancia entre os diferentes.<\/p>\n<h4><strong>Antipol\u00edtica e performatividade m\u00edtica: estrat\u00e9gias neofascistas e a moda<\/strong><\/h4>\n<p>Na contemporaneidade, a forma\u00e7\u00e3o do discurso da antipol\u00edtica est\u00e1 intimamente associada a performatividade m\u00edtica. Ela \u00e9 respons\u00e1vel por provocar uma ruptura com o <em>p\u00e1thos da<\/em> dist\u00e2ncia <a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.O discurso de lideran\u00e7a se constr\u00f3i por um jogo de verdades baseado na produ\u00e7\u00e3o de mitologias com o intuito de transformar a ideologia em alternativa para as diversas crises que enfrentamos. Logo, se um discurso produz tanto ideias quanto sujeitos, o que estaria em quest\u00e3o seria o modo de presen\u00e7a pr\u00f3prio \u00e0 lat\u00eancia do mito. A partilha de significados produzida em rede seria o exemplo da frui\u00e7\u00e3o de sentido nesta <em>outra margem<\/em> da pol\u00edtica. Esta experi\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 estimula a mentira, mas transfigura em verdade hist\u00f3rica o que \u00e9 fic\u00e7\u00e3o. Como exemplo, as estrat\u00e9gias de montagens de IA que manipulam cenas, os atores da cena pol\u00edtica e o agenciamento simb\u00f3lico de objetos para lhes doar novos sentidos.<\/p>\n<p>Demuru (2024, 43) utiliza a ideia do <em>transe <\/em>para representar in\u00fameros exemplos destes sentidos compartilhados socialmente, como vimos na a\u00e7\u00e3o de bolsonaristas que, convencidos de que a elei\u00e7\u00e3o de 2022 no Brasil havia sido fraudada, invadiu o Pal\u00e1cio do Planalto e o Congresso Nacional (fig.1), devastando as obras de arte, os mobili\u00e1rios e demais s\u00edmbolos do patrim\u00f4nio cultural brasileiro. Arantes, Frias e Meneses (2024, 82) compreenderam esta a\u00e7\u00e3o como um tipo de \u201cperformance animalesca\u201d em resposta \u00e0 ins\u00edgnia <em>o poder emana do povo <\/em>representada pela imagem da posse do presidente Lu\u00eds In\u00e1cio da Silva em janeiro de 2023 <a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a>.<\/p>\n<p>De acordo com os autores, a \u201cdisson\u00e2ncia cognitiva\u201d conduziu a interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas por parte da extrema-direita, intensificando a produ\u00e7\u00e3o de ataques aos s\u00edmbolos do poder e da cultura brasileira. Grande parte dos manifestantes portava a camiseta amarela da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol, explorando-a como um signo de defesa do nacionalismo brasileiro. Ademais, tanto a a\u00e7\u00e3o devastadora quanto a ideia de utilizar tecidos nas cores verde-amarelo no rosto, eram uma mimese da a\u00e7\u00e3o dos chamados <em>Black blocs. <\/em>Arantes, Frias e Meneses (2024, 110) os descrevem como <em>green-yellow bloc patri\u00f3ticos <\/em>(fig.2), e afirmam que eles sequestraram as t\u00e1ticas da extrema-esquerda n\u00e3o para promover um atentado contra o capital <a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>, mas para disseminar uma imagem performativa do seu ide\u00e1rio m\u00edtico da p\u00e1tria, do povo e da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 1. Invas\u00e3o do Congresso Nacional, 8 de janeiro de 2023 \u2013 Foto: Gabriela Bil\u00f3, Folhapress, Brasil<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2341 size-medium aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-300x200.jpg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-768x512.jpg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-1536x1024.jpg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-2048x1365.jpg 2048w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-120x80.jpg 120w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1a-345x230.jpg 345w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-2338 size-medium aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-1024x683.jpg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-768x512.jpg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-1536x1024.jpg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-2048x1365.jpg 2048w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-120x80.jpg 120w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig-1-1-345x230.jpg 345w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: https:\/\/folhapress.folha.com.br\/fotos?site=folhapress&amp;skin=folhapress&amp;content_search=Gabriela+bil%F3+8+de+janeiro&amp;content_search_type=content&amp;content_type=photo&amp;content_date_at=&amp;content_date_start=&amp;content_date_end=&amp;clean_date=no acesso 21 de julho 2026.<\/h6>\n<p>Pela mitologia, o sens\u00edvel \u00e9 controlado, as dist\u00e2ncias s\u00e3o atenuadas e as diferen\u00e7as apagadas. O mito provoca tanto a coes\u00e3o quanto a mobiliza\u00e7\u00e3o dos sentidos porque ele restitui a ideia do poder descentralizado e presente em qualquer lugar, qualquer fala e qualquer discurso. A mobiliza\u00e7\u00e3o da <em>vontade de poder<\/em> no imagin\u00e1rio social ganha apelo junto \u00e0s massas na medida em que transforma o ideal democr\u00e1tico em moda, consolidando a falsa ideia de liberdade de express\u00e3o e de autonomia pol\u00edtica do sujeito. \u00c9 exatamente neste ponto que a mitologia se funde \u00e0 no\u00e7\u00e3o da performatividade<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>, porque ambas agitariam o ideal revolucion\u00e1rio apostando na cren\u00e7a liberal.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 2. Infogr\u00e1fico Fashion do Revolucion\u00e1rio Pac\u00edfico (sem autoria) e manifestantes patriotas, 2024<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2347 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2-212x300.jpg\" alt=\"\" width=\"212\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2-212x300.jpg 212w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2-725x1024.jpg 725w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2.jpg 736w\" sizes=\"auto, (max-width: 212px) 100vw, 212px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2350 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2a-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2a-225x300.jpeg 225w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2a-768x1024.jpeg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2a-1152x1536.jpeg 1152w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2a-1536x2048.jpeg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_2a-scaled.jpeg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: Acervo da autora<\/h6>\n<p>A performatividade m\u00edtica da extrema-direita implicaria em fazer crer que qualquer a a\u00e7\u00e3o ou discurso poderia alterar o curso da nossa hist\u00f3ria a partir da transforma\u00e7\u00e3o das mentalidades. Afeitos aos conflitos, os ativistas da extrema-direita utilizam os signos vestimentares para viabilizarem a marca\u00e7\u00e3o das dist\u00e2ncias, animando o <em>p\u00e1thos pol\u00edtico<\/em> por meio de mensagens ic\u00f4nicas: \u201cmeu partido \u00e9 o Brasil\u201d, \u201cDeus, P\u00e1tria, Fam\u00edlia, Liberdade, Verdade\u201d, \u201cBrasil acima de Tudo, Deus acima de Todos\u201d, \u201cFora Lula\u201detc (fig.3).<\/p>\n<p>Adverse (2018, 66) analisa que a antipol\u00edtica pode remeter, por um lado, \u00e0s formas de resist\u00eancia ao poder governamental e, por outro lado, \u00e0s atitudes destrutivas frente aos pressupostos fundamentais da vida em comum. Dentre as defini\u00e7\u00f5es apontadas por ele, destacam-se o entendimento da antipol\u00edtica como um <em>discurso pol\u00edtico <\/em>que se manifesta sobretudo sob a forma da derris\u00e3o, da espetaculariza\u00e7\u00e3o, da moraliza\u00e7\u00e3o, da tecnifica\u00e7\u00e3o e da judicializa\u00e7\u00e3o. Em situa\u00e7\u00f5es cotidianas, a antipol\u00edtica poderia ser representada pela <em>palavra da moda<\/em>, reconfigurando-se sob a forma da espetaculariza\u00e7\u00e3o e dos estilos adotados pelos patriotas nas manifesta\u00e7\u00f5es populares. As revoltas, as insurg\u00eancias e revolu\u00e7\u00f5es nos permitem observar o vestu\u00e1rio sob diferentes perspectivas da antipol\u00edtica porque a <em>palavra da moda<\/em> replica potencialmente as ideologias. A extrema-direita brasileira apropria-se do uso de estrat\u00e9gias de estiliza\u00e7\u00e3o dos corpos como uma forma de resist\u00eancia \u00e0s pautas progressistas. A linguagem pl\u00e1stica do seu sistema vestimentar reproduz excessivamente as mesmas divisas relacionadas a ideia de identidade-na\u00e7\u00e3o, separando os g\u00eaneros para reafirmar os valores tradicionais da fam\u00edlia brasileira.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 3. \u201cMeu Partido \u00e9 o Brasil\u201d, R\u00e9plicas das Camisetas da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol, Belo Horizonte, 2024<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2353 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig_3b-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig_3b-225x300.jpeg 225w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig_3b-768x1024.jpeg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig_3b-1152x1536.jpeg 1152w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig_3b-1536x2048.jpeg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig_3b-scaled.jpeg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2359 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig3_b-225x300.jpeg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig3_b-225x300.jpeg 225w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig3_b-768x1024.jpeg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig3_b-1152x1536.jpeg 1152w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig3_b-1536x2048.jpeg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig3_b-scaled.jpeg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2356 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig-_3c-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig-_3c-300x225.jpeg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig-_3c-1024x768.jpeg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig-_3c-768x576.jpeg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig-_3c-1536x1152.jpeg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig-_3c-2048x1536.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: Acervo da autora<\/h6>\n<p>Quando comparamos o fen\u00f4meno da extrema-direita \u00e0s tend\u00eancias de moda de longa dura\u00e7\u00e3o, n\u00f3s apontamos para o fato de que h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada a morfossintaxe do vestu\u00e1rio \u00e9 repetida. A imitabilidade e as c\u00f3pias refletem a reprodutibilidade dos c\u00f3digos simb\u00f3licos: o uso da bandeira nacional como capa ou como uma echarpe, a reprodutibilidade dos c\u00f3digos simb\u00f3licos da cultura de massa advindas da est\u00e9tica <em>gamer<\/em>, o uso dos s\u00edmbolos militares, de estampas camufladas ou de pe\u00e7as cl\u00e1ssicas com cortes r\u00edgidos que exploram a disciplinariza\u00e7\u00e3o dos corpos, todos aparatos t\u00e9cnicos semelhantes ao projeto est\u00e9tico-pol\u00edtico explorado exaustivamente pelo fascismo, pelo nazismo e pelos regimes totalit\u00e1rios ou populistas da extrema-esquerda.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia est\u00e9tica \u00e9 modelada pela \u201cpercep\u00e7\u00e3o t\u00e1til\u201d (Benjamin, 1994, 183) para que a exposi\u00e7\u00e3o de temas pol\u00edticos seja imediata e para que tudo possa ser \u201cmostr\u00e1vel\u201d determinando, consequentemente, uma forma de controle sobre o sens\u00edvel. A recep\u00e7\u00e3o t\u00e1tica e a recep\u00e7\u00e3o \u00f3tica explicitam a transforma\u00e7\u00e3o do processo perceptivo da mensagem pol\u00edtica. Orientada pelo choque, a produ\u00e7\u00e3o de sentido se transforma no pr\u00f3prio espet\u00e1culo, consolidando o \u00edmpeto de rebeldia como um tipo de distra\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo cr\u00edtico. Este processo perceptivo abre caminhos para outras formas da antipol\u00edtica porque substitui a produ\u00e7\u00e3o de sentido pela paix\u00e3o instant\u00e2nea desencadeada pelos diferentes afetos como a frustra\u00e7\u00e3o, o desencantamento, a cren\u00e7a em ideologias religiosas ou morais etc. O fen\u00f4meno da moda sustenta, em parte, a customiza\u00e7\u00e3o desses afetos e o ritmo dos gestos, uniformizando o comportamento mim\u00e9tico do grupo a partir da padroniza\u00e7\u00e3o do corpo social (fig. 4).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 4. Manifesta\u00e7\u00e3o na Avenida Paulista em defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, 2016 Foto: Rovena Rosa\/Ag\u00eancia Brasil.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2363 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4-300x199.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4-300x199.jpg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4-1024x681.jpg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4-768x510.jpg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4-120x80.jpg 120w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4-345x230.jpg 345w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_4.jpg 1291w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Ficheiro:Manifesta\u00e7\u00e3oemS\u00e3oPaulo\">https:\/\/pt.m.wikipedia.org\/wiki\/Ficheiro:Manifesta\u00e7\u00e3oemS\u00e3oPaulo<\/a> acesso 30 de setembro 2024.<\/h6>\n<p>A ideia seria, de acordo com Matard-Bonuci (2022, p.20), repensar a fun\u00e7\u00e3o utilit\u00e1ria do vestu\u00e1rio dentro de uma pol\u00edtica de manipula\u00e7\u00e3o das massas com o intuito de separar e estigmatizar a simb\u00f3lica na cultura do vestir. O vestu\u00e1rio adquiriu um papel fundamental nas manifesta\u00e7\u00f5es c\u00eanicas do fascismo integrando de forma singular o plano de estetiza\u00e7\u00e3o da propaganda pol\u00edtica. Com isso, operar-se-ia uma desestabiliza\u00e7\u00e3o do lugar do sujeito na produ\u00e7\u00e3o do sentido discursivo da sua imagem. A mitologia e a ideologia seriam respons\u00e1veis por fixar a experi\u00eancia mim\u00e9tica para regular tanto a experi\u00eancia sens\u00edvel do pensamento quanto os modos de exist\u00eancia est\u00e9ticos.<\/p>\n<p>Paulicelli (2004) compreende que dentro das pol\u00edticas totalit\u00e1rias h\u00e1 uma captura iminente do imagin\u00e1rio est\u00e9tico que for\u00e7a uma injun\u00e7\u00e3o do ide\u00e1rio m\u00edtico sob apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica de uma identidade-nacional com o intuito de se unificar o corpo social, eliminando as divis\u00f5es e dissid\u00eancias culturais existentes. Dessa maneira, criam-se uma gram\u00e1tica e uma sintaxe vestimentares por interm\u00e9dio das quais se estrutura rigidamente o sistema ideol\u00f3gico. O mimetismo pl\u00e1stico e crom\u00e1tico organiza a paisagem pol\u00edtica e cultural, homogeneizando as apar\u00eancias a fim de dar visibilidade ao pensamento pol\u00edtico dominante. O papel do vestu\u00e1rio \u00e9 estrat\u00e9gico porque ele modela o ideal pol\u00edtico erigindo uma paisagem humana figurada pela identidade nacional difundida em massa. A identidade pol\u00edtica nacional suscita uma associa\u00e7\u00e3o meton\u00edmica refor\u00e7ando a ideologia como \u00edcone explicito desta determinada forma de poder. A rela\u00e7\u00e3o entre a moda e a pol\u00edtica (da extrema-direita ou da extrema-esquerda) nos deixaram importantes li\u00e7\u00f5es a respeito da estiliza\u00e7\u00e3o dos corpos como um tipo de dispositivo de controle da produ\u00e7\u00e3o de subjetividades.<\/p>\n<h4><strong>Com camiseta, sem camiseta: o parlamento m\u00edtico das ruas<\/strong><\/h4>\n<p>H\u00e1 cem anos a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira foi criada, sendo derivada das refer\u00eancias do uniforme ingl\u00eas de futebol. Gradativamente, o modelo foi se adequando \u00e0 nossa cultura at\u00e9 se distanciar do estilo europeu. Dentre as modifica\u00e7\u00f5es se destacam as varia\u00e7\u00f5es em torno da modelagem, dos materiais e dos detalhes de acabamentos, dentre eles, a retirada de elementos que a associavam ao estilo do uniforme dos atletas do T\u00eanis. A inten\u00e7\u00e3o foi popularizar a imagem da sele\u00e7\u00e3o. A afirma\u00e7\u00e3o mitol\u00f3gica da camiseta estaria associada \u00a0\u00e0 vit\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o na copa de 1958. Devido \u00e0 recusa dos jogadores utilizarem a camiseta branca na final, a confedera\u00e7\u00e3o encomendou novos uniformes azuis para os jogadores. Paulo Machado de Carvalho associou a cor azul ao manto da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, com intuito de se criar um la\u00e7o entre o divino e o profano no dom\u00ednio esportivo. Com a vit\u00f3ria da sele\u00e7\u00e3o, esta narrativa foi difundida de modo a expressar um tipo de sacralidade da camiseta, difundindo a ideia de que ela representaria os tra\u00e7os simb\u00f3licos mais sagrados da cultura brasileira. Em sua cr\u00f4nica para jornal Correio da Manh\u00e3, Carlos Drummond de Andrade (2012) remonta a ideia de que a camiseta da sele\u00e7\u00e3o seria um s\u00edmbolo da cultura brasileira:<\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o me venham insinuar que o futebol \u00e9 o \u00fanico motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da inefici\u00eancia ou da inaptid\u00e3o nos setores pr\u00e1ticos. Essa vit\u00f3ria no est\u00e1dio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organiza\u00e7\u00e3o, de persist\u00eancia, de resist\u00eancia, de esp\u00edrito associativo e de t\u00e9cnica. Indica valores morais e eug\u00eanicos, sa\u00fade de corpo e de esp\u00edrito, poder de adapta\u00e7\u00e3o e de supera\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de esconder as nossas car\u00eancias, mas de mostrar como v\u00eam sendo corrigidas, como se temperam com virtualidades que a educa\u00e7\u00e3o ir\u00e1 desvendando, e de assinalar o avan\u00e7o imenso que a nossa gente vai alcan\u00e7ando na descoberta de si mesma. (Andrade, 2012, 37)<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta ret\u00f3rica foi incorporada \u00e0 camiseta ao longo de d\u00e9cadas, sistematizando o mito de que o artefato representava o despertar da autoconsci\u00eancia cultural, representando a unidade do povo e da na\u00e7\u00e3o brasileira. Barthes (1977, 267) compreende esta ret\u00f3rica vestimentar como uma fabula\u00e7\u00e3o que funde o real e o imagin\u00e1rio a partir de um objeto ordin\u00e1rio do cotidiano. Para ele esta atividade de convers\u00e3o mobiliza causas e efeitos em s\u00edmbolos, produzindo uma <em>realidade ut\u00f3pica<\/em>. A ado\u00e7\u00e3o da camiseta, como um s\u00edmbolo de resili\u00eancia e de triunfo da cultura brasileira, torna-se uma ideologia na medida em que mitifica a realidade social como um tributo desta <em>utopia real. <\/em>Salienta Barthes que o l\u00e9xico vestimentar n\u00e3o altera a realidade, mas pode se tornar uma utopia real na medida em que se institui como uma narrativa hist\u00f3rica. Pela ades\u00e3o e pela mimese, o uso da camiseta da sele\u00e7\u00e3o se transfigura em realidade, passando a atribuir simbolicamente a produ\u00e7\u00e3o de sentido constru\u00edda na vida cotidiana. Portanto, o que as pessoas conclamam ao portarem a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol \u00e9, para al\u00e9m do amor \u00e0 camiseta, o atributo de se reinventarem com base na demonstra\u00e7\u00e3o de uma excel\u00eancia tipicamente brasileira: a ginga, o drible e o jeitinho brasileiro. Portar a camiseta 10 da sele\u00e7\u00e3o n\u00e3o simbolizaria apenas o nacionalismo, mas uma arte de viver relacionada \u00e0 hist\u00f3ria do futebol e \u00e0 experi\u00eancia do corpo na apari\u00e7\u00e3o de sua performatividade m\u00edtica.<\/p>\n<p>E\u0301 consensual, entre as fontes hist\u00f3ricas, que houve inicialmente uma tentativa de se elitizar o esporte para gerar dist\u00e2ncia entre as camadas sociais. Contudo, mesmo apo\u0301s confrontos de classes com ide\u00e1rios racistas, a pr\u00e1tica foi gradativamente sendo introduzida nas periferias, com forte inser\u00e7\u00e3o entre oper\u00e1rios das ind\u00fastrias e, principalmente, entre os jovens e as crian\u00e7as dos morros. Em consequ\u00eancia disso, conflituosas discuss\u00f5es foram instauradas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX a respeito da integrac\u0327a\u0303o dos negros em ci\u0301rculos sociais da elite para o exerc\u00edcio do esporte. N\u00e3o nos esque\u00e7amos da marginaliza\u00e7\u00e3o racial ainda presente no futebol e que, infelizmente, ainda em nossa contemporaneidade, assombra os est\u00e1dios.<\/p>\n<p>O futebol se popularizou no Brasil porque podia ser praticado por um grupo indeterminado de participantes, em qualquer lugar e com artefatos improvisados (um gesto t\u00edpico da nossa cultura da \u201cgambiarra\u201d). O futebol brasileiro ainda \u00e9 praticado em qualquer lugar e de modo improvisado. Como no passado, os bairros e as periferias brasileiras est\u00e3o repletos de \u201cpeladeiros\u201d. Os brasileiros jogam futebol com qualquer bola, seja essa uma bola de meia ou pl\u00e1stico, nosso campo pode ser uma rua ou pra\u00e7a, e o nosso gol, pode ser delimitado por um objeto qualquer. Isso se explica a grande difus\u00e3o do esporte no Brasil, podemos dizer que o brasileiro compreendeu que o elemento mais importante para a pr\u00e1tica desse esporte era imaterial. \u00c9 este elemento imaterial que comp\u00f5e a mitologia da camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira, o uso da camiseta amarela significou, por muitas d\u00e9cadas, algo observado por Barthes (2001) ao analisar o <em>catch <\/em>na Am\u00e9rica e na Fran\u00e7a: uma esp\u00e9cie de combate mitol\u00f3gico que ora representava o inimigo pol\u00edtico, ora poderia representar os atributos \u00e9ticos do her\u00f3i ou do vil\u00e3o.<\/p>\n<p>Poucos meses antes do in\u00edcio da Copa do Mundo de 2014, a camiseta 10 da sele\u00e7\u00e3o foi celebrada por exposi\u00e7\u00f5es, semanas de moda e em mostras do design que tentavam interpret\u00e1-la como um s\u00edmbolo de brasilidade<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>. Para se compreender esta revitaliza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica \u00e9 importante retomar algumas informa\u00e7\u00f5es referentes \u00e0 cultura de moda. Ao longo das d\u00e9cadas, o uso da camiseta de futebol se integrou \u00e0 cultura de moda no Brasil e, nos anos de 1990, as camisetas oficiais dos times de futebol foram incorporadas \u00e0 cultura do <em>streetwear, <\/em>em particular, pela influ\u00eancia da m\u00fasica pop brasileira e internacional. Como foi um per\u00edodo de grande produ\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria do jeans no Brasil, as marcas apresentam as suas cole\u00e7\u00f5es e cada uma delas propunha uma leitura sem\u00e2ntica das camisetas esportivas do futebol.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a derrota na copa de 2014, a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira foi integrada \u00e0 voz dos <em>deserdados culturais<\/em> e o uso da camiseta j\u00e1 n\u00e3o simbolizava uma concilia\u00e7\u00e3o nacional que se orgulhava do projeto cultural do Brasil. A camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira passou a n\u00e3o mais representar algo na cultura do vestir que a associava ao orgulho, \u00e0 resili\u00eancia e ao triunfo<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>. Entretanto, dizia Andrade (2002, 25) que o m\u00e9rito da derrota consiste em isentar o derrotado de qualquer responsabilidade da vit\u00f3ria (frase que pode se referir ao futebol ou \u00e0s elei\u00e7\u00f5es). E, ironicamente, as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil t\u00eam ocorrido no mesmo ano de realiza\u00e7\u00e3o das Copas do Mundo.<\/p>\n<p>Esta frase de Andrade (2002), que era tamb\u00e9m cronista esportivo, foi amplamente difundida em 2014. Ela atendia tanto aos interesses ideol\u00f3gicos da direita quanto aos da esquerda, agitando ativamente as partilhas est\u00e9ticas<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> nas redes sociais. Naquele momento, a emerg\u00eancia do discurso da antipol\u00edtica ainda era incipiente, mas j\u00e1 havia uma grande cis\u00e3o no espa\u00e7o social brasileiro. Os termos direita e esquerda ressurgiram ativamente, tornando o referencial para designar os grupos mais \u00e1vidos por propostas liberais e os outros mais inclinados \u00e0 prote\u00e7\u00e3o social do Estado. O grupo liberal se apropriou da camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol para marcar a sua diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos eleitores da esquerda que portavam camisetas na cor vermelha. Deste conflito de ideias, institu\u00edram-se grupos de milit\u00e2ncia da extrema-direita com graves consequ\u00eancias para a cultura brasileira, dentre elas, a mobiliza\u00e7\u00e3o da for\u00e7a col\u00e9rica como uma emo\u00e7\u00e3o vital para o <em>p\u00e1thos pol\u00edtico.<\/em><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 5. <em>N\u00e3o Vai Ter Copa<\/em> \u2013 manifesta\u00e7\u00e3o social 2013, Blog <em>Causa Oper\u00e1ria<\/em> &#8211;\u00a0 Captura de tela do Blog.<\/h6>\n<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2366\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura-5-300x212.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"212\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura-5-300x212.jpg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura-5-1024x723.jpg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura-5-768x542.jpg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura-5-1536x1084.jpg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura-5-2048x1446.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><span style=\"font-size: 10.72px; font-weight: bold; text-align: center;\">Fonte:\u00a0 <\/span><a style=\"font-size: 10.72px; font-weight: bold; text-align: center;\" href=\"https:\/\/causaoperaria.org.br\/2020\/por-que-o-nao-vai-ter-copa-foi-um-movimento-golpista\/\">https:\/\/causaoperaria.org.br\/2020\/por-que-o-nao-vai-ter-copa-foi-um-movimento-golpista\/<\/a><span style=\"font-size: 10.72px; font-weight: bold; text-align: center;\"> consulted 30 September 2024<\/span><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig.\u00a0 6. Frame da campanha da ABA <em>O melhor do Brasil s\u00e3o os brasileiros: Sou brasileiro e nunca desisto<\/em>, de Adriano Gehres e Jaques Lewkowicz, Ag\u00eancia Lew, Lara, 2005 \u2014 captura de tela do YouTube.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2369 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_6-300x177.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"177\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_6-300x177.jpg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Figura_6.jpg 632w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KYENLJD1eM4\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=KYENLJD1eM4<\/a>\u00a0 Acesso 30 de mar\u00e7o de 2025.<\/h6>\n<p>Ao longo do ano de 2014, a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira foi utilizada como um signo reverso \u00e0 representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de resili\u00eancia e triunfo constitu\u00edda ao longo das d\u00e9cadas. Primeiramente, a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol foi utilizada nas manifesta\u00e7\u00f5es das Jornadas de Junho de 2013, durante a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es. A partir da frase \u201c<em>N\u00e3o vai ter Copa<\/em>\u201d (fig.5), que foi pichada em muros e compartilhadas nas redes sociais, alguns militantes vestiram a camiseta como um signo dial\u00e9tico. Eles protestavam contra a falta de investimentos em \u00e1reas essenciais como a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o, criticando os gastos excessivos do Estado para a constru\u00e7\u00e3o ou reforma dos est\u00e1dios de futebol. Posteriormente, entre os meses de agosto e outubro de 2014, parte do eleitorado do candidato do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira), que fazia oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 candidata do PT (Partido dos Trabalhadores)<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a>, come\u00e7ou a utilizar a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira para marcar as diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas frente \u00e0s pautas progressistas, portando-a como um apoio \u00e0 pol\u00edtica neoliberal do candidato.<\/p>\n<p>As cores verde e amarelo se tornaram s\u00edmbolos amplamente utilizados tanto pela popula\u00e7\u00e3o quanto pelos candidatos, refletindo convic\u00e7\u00f5es particularizadas de pautas da direita pol\u00edtica. Em outubro de 2014, a Avenida Paulista foi palco de uma manifesta\u00e7\u00e3o da direita, apelidada pela revista brit\u00e2nica The Economist como &#8220;Revolu\u00e7\u00e3o Cashmere&#8221;<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a>. Em um artigo do portal Brasil Debate, Vieira (2014) descreveu os participantes como indiv\u00edduos vestidos de maneira elegante, empunhando bandeiras de seus candidatos, enquanto socialites entoavam slogans contra o PT<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a>. \u00c9 interessante observar que, no intervalo de doze meses, este objeto do vestu\u00e1rio foi ressignificado de formas distintas e por grupos pol\u00edticos diferentes. Ao longo dos meses, a camiseta da sele\u00e7\u00e3o, se tornou o s\u00edmbolo da insatisfa\u00e7\u00e3o e da revolta de parte do eleitorado tanto da esquerda quanto da direita brasileira. Com a deflagra\u00e7\u00e3o do movimento de <em>impeachment <\/em>e com o envolvimento do candidato do PSDB em s\u00e9rie de conflitos de interesses e esquemas de corrup\u00e7\u00e3o, abriu-se um largo espectro para a ascens\u00e3o das pautas da extrema-direita no Brasil. \u00c9 importante salientar que, neste momento, a esquerda utilizou uma divisa muito parecida \u00e0quela deflagrada durante as Jornadas de Junho em 2013.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 7. \u201cN\u00e3o vai ter Copa\u201d, Protesto contra a FIFA e a Copa do Mundo de 2014, Foto: Fernando Fraz\u00e3o\/Ag\u00eancia Brasil<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-2372 size-full\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig7.png\" alt=\"\" width=\"1304\" height=\"284\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig7.png 1304w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig7-300x65.png 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig7-1024x223.png 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig7-768x167.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1304px) 100vw, 1304px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/search?term=Manifesta%2525252525C3%2525252525A7%2525252525C3%2525252525A3o+contra+copa+do+mundo\">https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/search?term=Manifesta\u00e7\u00e3o+contra+copa+do+mundo<\/a> acesso 21 de julho de 2026.<\/h6>\n<p>Do lema \u201c<em>n\u00e3o vai ter copa<\/em>\u201d, ela passou a defender o espa\u00e7o democr\u00e1tico por interm\u00e9dio da frase: \u201c<em>n\u00e3o vai ter golpe<\/em>\u201d (fig. 8). Em dois anos, alguns grupos de extrema-direita formaram uma frente para discutir e reivindicar uma mudan\u00e7a radical nos modos de percep\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o da cultura brasileira.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 8. \u201cN\u00e3o vai ter Golpe\u201d \u2013 Protesto na Cidade de Belo Horizonte contra o impeachment da Presidente Dilma Rousseff em 17 de abril de 2016.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2375 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig9-300x225.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig9-300x225.jpg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig9-1024x768.jpg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig9-768x576.jpg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig9-1536x1152.jpg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Fig9-2048x1536.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-2378 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig9a-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig9a-225x300.jpg 225w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig9a-768x1024.jpg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig9a-1152x1536.jpg 1152w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig9a-1536x2048.jpg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig9a-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"auto, (max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: Acervo da autor<\/h6>\n<p>Ap\u00f3s 2016, in\u00fameros grupos da extrema-direita se reuniam com mensagens violentas inscritas sobre a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira, acrescentando pautas relacionadas aos costumes religiosos e morais, dentro do espectro de suas narrativas. A partir disso, a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol se tornou o s\u00edmbolo do movimento da extrema-direita brasileira, fidelizando a representa\u00e7\u00e3o dos interesses de parte da elite<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a> e, simultaneamente, engajando outras camadas sociais pela promessa da reforma dos costumes. Esta produ\u00e7\u00e3o de afetos em torno da camiseta da sele\u00e7\u00e3o se acentuou durante as elei\u00e7\u00f5es de 2018, tornando-se a imagem de uma luta por um tipo de revolu\u00e7\u00e3o cultural e espiritual no Brasil. A camiseta se tornou um totem dos ritos do processo eleitoral que, sob a divisa \u201cDeus, P\u00e1tria, Fam\u00edlia\u201d, do candidato Jair Bolsonaro, era vendida e portada por vendedores ambulantes nos centros urbanos (fig. 9).<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 9. Vendedor ambulante em manifesta\u00e7\u00e3o no dia 7 de setembro, Belo Horizonte, 2024<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2381 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig10-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig10-300x225.jpeg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig10-1024x768.jpeg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig10-768x576.jpeg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig10-1536x1152.jpeg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig10-2048x1536.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: Acervo da autora<\/h6>\n<p>Se pensarmos na morfossintaxe do vestu\u00e1rio analisada por Barthes (1977), a estrutura significante da camiseta amarela da sele\u00e7\u00e3o remonta \u00e0 no\u00e7\u00e3o de <em>utopia real <\/em>porque ela fabula paradoxalmente o <em>ideal ut\u00f3pico<\/em> da vit\u00f3ria para a cultura brasileira. Apesar de toda vit\u00f3ria ser transit\u00f3ria e ilus\u00f3ria, a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira carregou consigo a mitologia de uma cultura que soube traduzir, ou melhor, <em>transcriar <\/em>(\u00e0 maneira do poeta Haroldo de Campos), uma cultura esportiva europeia. Retomando as palavras de Andrade (2012, 21): \u201cFutebol se joga no est\u00e1dio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga com alma\u201d. A populariza\u00e7\u00e3o do esporte conta, em especial, com a assimila\u00e7\u00e3o daqueles que o jogam nas praias, nas ruas e na alma. Sim, a camiseta amarela da sele\u00e7\u00e3o brasileira seria a mitologia da <em>alma<\/em> da cultura brasileira. Por isso, na linguagem popular, utiliza-se a express\u00e3o \u201camor \u00e0 camisa\u201d como uma refer\u00eancia ao amor pelo futebol (fig. 10). Esta express\u00e3o traduz n\u00e3o somente o <em>p\u00e1thos <\/em>e a forma do sens\u00edvel, ela remonta parte da hist\u00f3ria da cultura brasileira.<\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fig. 10. R\u00e9plicas das Camisas da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira em manifesta\u00e7\u00e3o no dia 7 de setembro, Belo Horizonte, 2024.<\/h6>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-2384 aligncenter\" src=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig11-300x225.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"225\" srcset=\"http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig11-300x225.jpeg 300w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig11-1024x768.jpeg 1024w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig11-768x576.jpeg 768w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig11-1536x1152.jpeg 1536w, http:\/\/jlacs-travesia.online\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/fig11-2048x1536.jpeg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/p>\n<h6 style=\"text-align: center;\">Fonte: Acervo da autora<\/h6>\n<p>Durante as elei\u00e7\u00f5es no ano de 2018, o <em>rapper<\/em> Djonga utilizou a camiseta da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol em um concerto dizendo que, apesar da apropria\u00e7\u00e3o pela extrema-direita, para a periferia ela ainda significaria a vit\u00f3ria e, nas favelas, ela representaria a resili\u00eancia do homem negro<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a>. Portanto, sem a camiseta ou com camiseta, o parlamento m\u00edtico das ruas tenta definir, \u00e0 direita ou \u00e0 esquerda, os limites do vis\u00edvel e do sens\u00edvel evocados pelo vestu\u00e1rio no cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro. A camiseta da sele\u00e7\u00e3o se tornou parte desta consci\u00eancia, participando desse jogo estil\u00edstico de realidades alternativas em que fatos e fic\u00e7\u00f5es s\u00e3o continuamente elaborados.<\/p>\n<p>\u00c9 pela percep\u00e7\u00e3o t\u00e1til que o jogo cont\u00ednuo de aproxima\u00e7\u00e3o dissolve o <em>p\u00e1thos da dist\u00e2ncia, <\/em>contribuindo tanto para a produ\u00e7\u00e3o de um imagin\u00e1rio repleto de estere\u00f3tipos sociais quanto para a produ\u00e7\u00e3o excessiva de mitologias que apagam a distin\u00e7\u00e3o entre a realidade e a fic\u00e7\u00e3o. Argumento que nos conduz novamente \u00e0 no\u00e7\u00e3o de Barthes (2013, 311) denominada de <em>inst\u00e2ncia alocut\u00f3ria<\/em>. Ela diz respeito ao <em>jogo do lugar simb\u00f3lico<\/em> na constru\u00e7\u00e3o dos discursos, explicitando a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Como consequ\u00eancia, provoca-se a distor\u00e7\u00e3o do real.<\/p>\n<p>Como nos explica Mbarga (2010), quando o vestu\u00e1rio \u00e9 transformado em linguagem, ele unifica a estrutura tecnol\u00f3gica da sua materialidade \u00e0 dimens\u00e3o narrativa da fala aproximando-se da representa\u00e7\u00e3o social. Com isso, ele indica uma unidade entre hist\u00f3ria e narrativa. A morfossintaxe da camiseta amarela explicita exatamente esta unidade entre narrativa e hist\u00f3ria, pois o seu agenciamento afetivo engaja elementos ideol\u00f3gicos diversos, em particular, por investir os corpos de linguagens discordantes que transitam do ressentimento \u00e0 atitude de resili\u00eancia. A tipologia do vestu\u00e1rio estaria sempre aberta \u00e0s ressemantiza\u00e7\u00f5es por interm\u00e9dio do seu uso na hist\u00f3ria real. Enquanto a palavra estiver liberta para jogo infinito de ressignifica\u00e7\u00f5es, n\u00f3s teremos chances de ganhar a partida. E, se perdermos, como Drummond (2012) nos ensinou, recome\u00e7amos de novo: <em>enquanto houver futebol, n\u00f3s temos chances de sobreviver. <\/em><\/p>\n<h4><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/h4>\n<p>Este texto teve como inten\u00e7\u00e3o pensar em que medida as formas da antipol\u00edtica sistematizam o projeto de reforma cultural e espiritual na cultura brasileira, examinando como o fen\u00f4meno da moda contribui para difundir a ideologia da extrema-direita. A partir da mimese de ideias e da reprodu\u00e7\u00e3o excessiva dos c\u00f3digos simb\u00f3licos da camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira, observamos como algumas a\u00e7\u00f5es performativas se aproximam do ide\u00e1rio neofacista, intentando, por interm\u00e9dio da constru\u00e7\u00e3o do discurso da antipol\u00edtica, propor uma reforma estil\u00edstica do corpo social. O fen\u00f4meno da moda contribui para a mitifica\u00e7\u00e3o do novo regime de visibilidade, baseado nos atributos nacionalistas. Pretendemos mostrar que, a partir da frui\u00e7\u00e3o das escolhas pol\u00edticas, a produ\u00e7\u00e3o do sentido foi deslocada para uma <em>outra margem: <\/em>o lugar no qual o imagin\u00e1rio \u00e9 fabulado pela mitologia e pela ideologia. Por este motivo, recorremos aos ensaios de Barthes para analisarmos a <em>frui\u00e7\u00e3o <\/em>do sentido que vincularia a epiderme da moda (a roupa) \u00e0 trama do discurso pol\u00edtico (as ideias), instituindo uma profunda crise no sens\u00edvel por tentar captur\u00e1-lo a partir de t\u00e9cnicas coercivas relacionadas \u00e0 difus\u00e3o de ideologias e mitos.<\/p>\n<p>Como Barthes (2001) nos lembra em seu ensaio cr\u00edtico, o mito transforma sentido em forma, corrompendo a linguagem para empobrec\u00ea-la, esvaziando-a da experi\u00eancia de produ\u00e7\u00e3o de signific\u00e2ncias. Como o mito \u00e9 uma fala e a sua discursividade pode ser transformada em plasticidade, tudo pode ser mitificado: uma fotografia, uma imagem, uma reportagem, uma a\u00e7\u00e3o, uma roupa. A mitologia se encontra com a ideologia no processo de estrutura\u00e7\u00e3o das narrativas, postulando uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua entre significante e significado, entre hist\u00f3ria e fic\u00e7\u00e3o. A correla\u00e7\u00e3o que os une \u00e9 faz\u00ea-los significar algo a partir de uma experi\u00eancia do sens\u00edvel e, pela produ\u00e7\u00e3o de sentido efetuada <em>a priori, <\/em>fazer algo significar o exatamente o que se deseja que signifique com o intuito de embotar, no plano da experi\u00eancia, a pluralidade da mensagem e a sua infinidade de sentido. Por isso, a mitologia e a ideologia despolitizam as transforma\u00e7\u00f5es do sentido, eclipsando a conting\u00eancia pr\u00f3pria \u00e0 narrativa hist\u00f3rica. A pol\u00edtica em sua dimens\u00e3o mais profunda atua na estrutura das rela\u00e7\u00f5es humanas e, exatamente por isso, ela pode ser comunicada pela linguagem da moda, sobretudo pela possibilidade de constru\u00e7\u00e3o coletiva do ide\u00e1rio numa <em>outra margem<\/em> do mundo.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<h4><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/h4>\n<h5>Adverse, Ang\u00e9lica. 2024. \u201cModa.\u201d In <em>Gloss\u00e1rio Minas Mundo<\/em> por Andr\u00e9 Botelho et alii, 364-369. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio.<\/h5>\n<h5>Adverse, Helton. 2018. \u201cAs formas da antipol\u00edtica.\u201d In: <em>Muta\u00e7\u00f5es: a outra margem da pol\u00edtica<\/em>, editado por Adauto Novaes. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Senac.<\/h5>\n<h5>Alicer\u00e7a Brasil. 2025.\u00a0<em>Projeto Tem\u00e1rio 1: Edi\u00e7\u00e3o Encontro Nacional de Mandat\u00e1rias 2025<\/em>. At <a href=\"https:\/\/plmulher.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/E-BOOK-PROJETO-ALICERCA-BRASIL.pdf\">https:\/\/plmulher.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/E-BOOK-PROJETO-ALICERCA-BRASIL.pdf<\/a>. Acesso em 11 de maio de 2026.<\/h5>\n<h5>Anderson, Chris. 2006. <em>A cauda longa<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Afonso Serra. Rio de Janeiro: Elsevier.<\/h5>\n<h5>Andrade, Carlos Drummond de. 2002. <em>Quando \u00e9 dia de futebol<\/em>. Rio de Janeiro: Record.<\/h5>\n<h5>Arantes, Pedro, Fernando Frias, e Maria Luiza Menezes. 2024. <em>8\/1 A rebeli\u00e3o dos man\u00e9s ou esquerda e direita nos espelhos de Bras\u00edlia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Hedra.<\/h5>\n<h5>Arendt, Hannah. 1961. <em>Between Past and Future: Eight Exercises in Political Thought<\/em>. New York: The Viking Press.<\/h5>\n<h5>Arendt, Hannah. 1992. <em>Entre o passado e o futuro. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Mauro de Almeida. S\u00e3o Paulo: Perspectiva.<\/h5>\n<h5>Arendt, Hannah. 2002. <em>O que \u00e9 pol\u00edtica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.<\/h5>\n<h5>Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Anunciantes. 2005.\u00a0<em>Eu sou brasileiro e n\u00e3o desisto nunca: Ronaldo Fen\u00f4meno<\/em>\u00a0[advertising film]. Ag\u00eancia\u00a0Lew, Lara. Concep\u00e7\u00e3o criativa Adriano Gehres; Dire\u00e7\u00e3o Art\u00edstica de Adriano Gehres e Jaques Lewkovics. Dura\u00e7\u00e3o: 1 min 1 sec.<\/h5>\n<h5>Barthes, Roland. 1975. <em>The Pleasure of the Text. <\/em>Tradu\u00e7\u00e3o de Richard Miller. New York: Hill and Wang<em>.<\/em><\/h5>\n<h5>Barthes, Roland. 1979. <em>O sistema da moda<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Lineide Mosca. S\u00e3o Paulo: EDUSP.<\/h5>\n<h5>Barthes, Roland. 1999. <em>O Prazer do texto<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de J. Guinsburg. S\u00e3o Paulo: Perspectiva.<\/h5>\n<h5>Barthes, Roland. 2001. <em>Mitologias<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Rita Buongermino e Pedro Souza. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.<\/h5>\n<h5>Barthes, Roland. 2013. <em>Como viver junto<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Leyla Perrone-Mois\u00e9s. S\u00e3o Paulo: Perspectiva.<\/h5>\n<h5>Benjamin, Walter. 1994. <em>Obras escolhidas I: magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Paulo S\u00e9rgio Rouanet. S\u00e3o Paulo: Brasiliense.<\/h5>\n<h5>Benjamin, Walter. 2006. <em>Passagens<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Irene Aron. Belo Horizonte: Ed. UFMG; S\u00e3o Paulo: Ed. Imprensa Oficial do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/h5>\n<h5>Bil\u00f3, Gabriela, e Pedro Inque. 2026. <em>Ju\u00edzo Final<\/em>. <em>Tentativa e fracasso do golpe no Brasil<\/em>. S\u00e3o Paulo: F\u00f3sforo; Selva.<\/h5>\n<h5>Bruneteteau, Bernard, e Fran\u00e7ois Hourmant. 2022. <em>Le Vestiaire des totalitarismes. <\/em>Paris\u00a0: CNRS.<\/h5>\n<h5>Causa Oper\u00e1ria. 2020.\u00a0\u201cPor que o \u201cN\u00e3o vai ter Copa\u201d foi um movimento golpista?\u201d <em>Causa Oper\u00e1ria<\/em>, 25 de julho. At:\u00a0 <a href=\"https:\/\/causaoperaria.org.br\/2020\/por-que-o-nao-vai-ter-copa-foi-um-movimento-golpista\/\">https:\/\/causaoperaria.org.br\/2020\/por-que-o-nao-vai-ter-copa-foi-um-movimento-golpista\/<\/a>. Acesso em 30 de setembro de 2024.<\/h5>\n<h5>Coccia, Emanuele. 2010. <em>A vida sens\u00edvel<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Diego Cervelin. Florian\u00f3polis: Cultura e Barb\u00e1rie.<\/h5>\n<h5>Demuru, Paolo. 2024. <em>Pol\u00edticas do encanto. Extrema-direita e fantasias de conspira\u00e7\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Paulo: Elefante.<\/h5>\n<h5>Jardim, L. 2026.\u00a0\u201cONG aciona Justi\u00e7a contra presidenci\u00e1vel que criticou \u2018favelagem\u2019 em an\u00fancio de camisa da sele\u00e7\u00e3o.\u201d\u00a0<em>O Globo<\/em>, March. At:\u00a0 <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/lauro-jardim\/post\/2026\/03\/ong-aciona-justica-contra-presidenciavel-que-criticou-favelagem-em-anuncio-de-camisa-da-selecao.ghtml\">https:\/\/oglobo.globo.com\/<br \/>\nblogs\/lauro-jardim\/post\/2026\/03\/ong-aciona-justica-contra-presidenciavel-que-criticou-favelagem-em-anuncio-de-camisa-da-selecao.ghtml<\/a>. Acesso em maio de 2026.<\/h5>\n<h5>Le Bon, Gustave. 2018. <em>Psicologia das multid\u00f5es<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Mariana S\u00e9rvulo Cunha. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes.<\/h5>\n<h5>Mac\u00e9, Mariele. 2016. <em>Styles. Critique de nos formes de vie. <\/em>Paris : Gallimard.<\/h5>\n<h5>Mbarga, Jean-Claude. 2010. <em>Trait\u00e9 de s\u00e9miotique vestimentaire<\/em>. Paris : L\u2019Harmattan.<\/h5>\n<h5>Nunes, Rodrigo. 2022. <em>Do transe \u00e0 vertigem: ensaios sobre bolsonarismo e um mundo em transi\u00e7\u00e3o.<\/em> S\u00e3o Paulo: Ubu Editora.<\/h5>\n<h5>Paulicelli, Eugenia. <em>Fashion under Fascism. Beyond the Black Shirt. <\/em>New York: Berg.<\/h5>\n<h5>O Estado de S\u00e3o Paulo. 2014. \u201cA revolu\u00e7\u00e3o da <em>cashmere<\/em>.\u201d <em>O Estado de S\u00e3o Paulo<\/em>, 23 October. At: <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/economia\/a-revolucao-da-cashmere\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/economia\/a-revolucao-da-cashmere\/<\/a>. Acesso em 27 de setembro de 2024.<\/h5>\n<h5>Pragmatismo Pol\u00edtico. 2014.\u00a0\u201cM\u00eddia internacional ironiza marcha pr\u00f3-A\u00e9cio: S\u00f3 faltou champanhe.\u201d\u00a0 <em>Pragmatismo Pol\u00edtico<\/em>, 24 de outubro: <a href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2014\/10\/midia-internacional-ironiza-marcha-pro-aecio-faltou-champanhe.html?utm\">https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2014\/10\/midia-internacional-ironiza-marcha-pro-aecio-faltou-champanhe.html?utm<\/a>. Acesso em 30 de setembro de 2026.<\/h5>\n<h5>Ranci\u00e8re, Jacques. 2004. <em>A partilha do sens\u00edvel. Est\u00e9tica e pol\u00edtica<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de M\u00f4nica Neto. S\u00e3o Paulo: 34.<\/h5>\n<h5>Rodrigues, Marcelino. \u201cFutebol.\u201d In <em>Gloss\u00e1rio Minas Mundo<\/em> por Andr\u00e9 Botelho et alii, 240-246. Belo Horizonte: Relic\u00e1rio.<\/h5>\n<h5>Ribeiro, Maria de F\u00e1tima Bento e Naiara Souza da Silva, 2023. \u201cA camiseta canarinho da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol.\u201d\u00a0<em>FuLiA<\/em>\/UFMG\u00a08 (1): 1-21. <a href=\"https:\/\/doi.org\/10.35699\/2526-4494.2023.42025\">https:\/\/doi.org\/10.35699\/2526-4494.2023.42025<\/a>. Acesso em11 Maio de 2026.<\/h5>\n<h5>Salvador, Raony. 2023. <em>\u201c<\/em><em>Essa gente me causou uma p\u00e9ssima impress\u00e3o, escreve colunista sobre \u00edndios e pretos\u201d<\/em>. <em>Revista Forum<\/em>, 8 de janeiro: <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/debates\/essa-gente-me-causou-uma-pessima-impressao-escreve-colunista-sobre-indios-e-pretos\/\">https:\/\/revistaforum.com.br\/debates\/essa-gente-me-causou-uma-pessima-impressao-escreve-colunista-sobre-indios-e-pretos\/<\/a>. Acesso em 30 Setembro de 2024.<\/h5>\n<h5>Starling, Heloisa. 2022. \u201cBrasil, o pa\u00eds do passado.\u201d In <em>Linguagem da destrui\u00e7\u00e3o: A democracia brasileira em crise<\/em>, por Newton Bignotto, Miguel Lago, Herloisa Starling.\u00a0 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras.<\/h5>\n<h5>Starling, Heloisa. 2018. <em>Ser republicano no Brasil col\u00f4nia. A hist\u00f3ria de uma tradi\u00e7\u00e3o esquecida<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cia das Letras.<\/h5>\n<h5>The Economist. 2014.\u00a0\u201cThe Cashmere Revolution. Business Barons and Financiers Take to the Streets in Support of the Market-Friendly A\u00e9cio Neves.\u201d <em>The Economist<\/em>, 23 de outubro. At: <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/americas-view\/2014\/10\/23\/the-cashmere-revolution\">https:\/\/www.economist.com\/americas-view\/2014\/10\/23\/the-cashmere-revolution<\/a> Acesso em 30 de setembro de 2024.<\/h5>\n<h5>Vogue. 2014.\u00a0\u201cArezzo recebe convidados para expo Camisa 10: Moda &amp; Futebol: Coquetel na flagship da marca comemora a chegada de mostra com 11 releituras da famosa camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira.\u201d\u00a0<em>Vogue Brasil<\/em>, 14 May. At: <a href=\"https:\/\/vogue.globo.com\/moda\/noticia\/2014\/05\/arezzo-recebe-convidados-para-expo-camisa-10-moda-futebol.ghtml\">https:\/\/vogue.globo.com\/moda\/<br \/>\nnoticia\/2014\/05\/arezzo-recebe-convidados-para-expo-camisa-10-moda-futebol.ghtml<\/a>. Acesso em 11 de maio de 2026.<\/h5>\n<h5>Voutsinas, Vinicius. 2023. \u201cDjonga afirma que camisa da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira sempre ser\u00e1 um s\u00edmbolo da periferia.\u201d <em>RAP MAIS: not\u00edcias de RAP, Lifestyle, Cultura Urbana e muito mais<\/em>, 9 January. At: <a href=\"https:\/\/portalrapmais.com\/djonga-afirma-que-camisa-da-selecao-brasileira-sempre-sera-um-simbolo-da-periferia\/\">https:\/\/portalrapmais.com\/djonga-afirma-que-camisa-da-selecao-brasileira-sempre-sera-um-simbolo-da-periferia\/<\/a> Acesso em 28 Setembro de 2024.<\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h5><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Destacamos aqui, a plataforma \u201cBrasil Paralelo\u201d que visa, inclusive, questionar a produ\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e liter\u00e1ria da hist\u00f3ria brasileira, documentando as dissid\u00eancias ideol\u00f3gicas e os conflitos da constru\u00e7\u00e3o narrativa de fatos hist\u00f3ricos.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Starling (2022, p.100) nos lembra que a mobiliza\u00e7\u00e3o de signos do passado hist\u00f3rico pela extrema-direita no Brasil \u00e9 um jogo ret\u00f3rico que visa reunir a massa em torno de s\u00edmbolos ambivalentes para gerar afetos greg\u00e1rios. O objetivo \u00e9 claro: garantir coes\u00e3o popular e regular a narrativa hist\u00f3rica do passado pelo esfor\u00e7o sistem\u00e1tico de mud\u00e1-la para assegurar a institui\u00e7\u00e3o de um ponto de vista reacion\u00e1rio e conservador.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Incluindo o presidente Lula, uma parte do corpo pol\u00edtico utilizou o bon\u00e9 azul com a mensagem: \u201co Brasil \u00e9 dos brasileiros\u201d. Esta a\u00e7\u00e3o foi uma resposta ao fato de que, parte da base que representa a extrema-direita, teria produzido um bon\u00e9 com a mensagem de apoio ao D. Trump em sess\u00f5es no Congresso brasileiro. Em seguida, a extrema-direita utilizou um novo modelo em resposta \u00e0 esquerda, inserindo a mensagem \u201ccomida barata novamente\u201d, contestando a pol\u00edtica de pre\u00e7os e impostos dos alimentos no Brasil.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Na cartilha lan\u00e7ada pelo Partido Liberal (2025, p.6) h\u00e1 uma clara exposi\u00e7\u00e3o do projeto de renova\u00e7\u00e3o cultural baseado em valores associados ao imagin\u00e1rio: \u201cDeus, P\u00e1tria, Fam\u00edlia e Liberdade\u201d. Neste texto, \u00e9 poss\u00edvel perceber que os termos utilizados adv\u00e9m de uma linguagem religiosa \u2013 a ideia de \u201cedificar uma na\u00e7\u00e3o\u201d parte de um prop\u00f3sito teol\u00f3gico a partir do qual se projeta uma nova identidade cultural para o pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/plmulher.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/E-BOOK-PROJETO-ALICERCA-BRASIL.pdf\">https:\/\/plmulher.org.br\/wp-content\/uploads\/2025\/07\/E-BOOK-PROJETO-ALICERCA-BRASIL.pdf<\/a><\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Essa quest\u00e3o se tornou evidente durante o lan\u00e7amento da nova camiseta oficial da Copa do Mundo de 2026, cujo projeto de moda foi desenvolvido a partir de refer\u00eancias da cultura perif\u00e9rica brasileira. A dire\u00e7\u00e3o de arte incorporou elementos do\u00a0<em>streetwear<\/em>\u00a0associados \u00e0s comunidades e favelas, o que intensificou tens\u00f5es e conflitos sociais no debate p\u00fablico. Nas redes sociais, representantes de partidos de extrema-direita criticaram a proposta est\u00e9tica, classificando-a de maneira pejorativa como \u201cfavel\u00e1vel\u201d, em refer\u00eancia \u00e0 imagem das favelas brasileiras e aos signos culturais vinculados \u00e0s periferias urbanas no Brasil. <a href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/lauro-jardim\/post\/2026\/03\/ong-aciona-justica-contra-presidenciavel-que-criticou-favelagem-em-anuncio-de-camisa-da-selecao.ghtml\">https:\/\/oglobo.globo.com\/blogs\/lauro-jardim\/post\/2026\/03\/ong-aciona-justica-contra-presidenciavel-que-criticou-favelagem-em-anuncio-de-camisa-da-selecao.ghtml<\/a> acesso 11 de maio 2026.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O princ\u00edpio da igualdade foi representado pela reforma do vestu\u00e1rio masculino, pois o uso do terno preto simbolizou o enfraquecimento das estruturas sociais hier\u00e1rquicas no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX, como vimos no Dandismo. Quanto ao vestu\u00e1rio feminino, a reforma se fundiu pelos movimentos feministas relacionados ao sufr\u00e1gio universal. Lembremo-nos da cal\u00e7a <em>Blommer <\/em>criada por Amelia Blommer.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Barthes (2013, 258) observa a pluralidade da vida em comum pelo estudo da <em>idioritimia, <\/em>que diria respeito ao ritmo da expans\u00e3o das ideias na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos discursos. \u00c9 desta rela\u00e7\u00e3o t\u00e3o complexa quanto ut\u00f3pica que Barthes examina as rela\u00e7\u00f5es de poder na experi\u00eancia da sociabilidade. A partir da no\u00e7\u00e3o nietzschiana de <em>p\u00e1thos da dist\u00e2ncia, <\/em>ele investiga a recria\u00e7\u00e3o de jogos sem\u00e2nticos que alteram a produ\u00e7\u00e3o dos significados. Para Barthes, o problema central da vida coletiva seria regular a dist\u00e2ncia cr\u00edtica que estabelece o lugar das coisas, das ideias e das pessoas na vida social.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> An\u00e1lise da editora de moda do Jornal Estado de Minas que questionou a \u201ccena-discurso\u201d em que representantes de diversas camadas sociais que expressavam as minorias passaram a faixa presidencial para \u00a0Lu\u00eds In\u00e1cio da Silva (Lula) na cerim\u00f4nia de posse em 1\/1\/2023: <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/debates\/2023\/1\/8\/essa-gente-me-causou-uma-pessima-impresso-escreve-colunista-sobre-indios-pretos-129822.html\">https:\/\/revistaforum.com.br\/debates\/2023\/1\/8\/essa-gente-me-causou-uma-pessima-impresso-escreve-colunista-sobre-indios-pretos-129822.html<\/a> acesso 30 de setembro 2024<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Consulte o fotolivro\u00a0<em>Ju\u00edzo Final: Tentativa e Fracasso do Golpe no Brasil<\/em>, da fot\u00f3grafa Gabriela Bil\u00f3 e do designer Pedro Inoue. A obra erige um manifesto est\u00e9tico que documenta a invas\u00e3o do Congresso Nacional brasileiro em 8 de janeiro de 2023.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> A palavra performatividade diz respeito as pr\u00e1ticas e as estrat\u00e9gias adotadas para produzir a express\u00e3o de certas identidades sociais ou posturas pol\u00edticas que erigem as inscri\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, diferentemente da performance, que \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o encenada.<\/h5>\n<h5><\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>\u00a0 Exposi\u00e7\u00e3o Camisa 10 em Mil\u00e3o no ano 2014: <a href=\"https:\/\/vogue.globo.com\/moda\/noticia\/2014\/05\/arezzo-recebe-convidados-para-expo-camisa-10-moda-futebol.ghtml\">https:\/\/vogue.globo.com\/moda\/noticia\/2014\/05\/arezzo-recebe-convidados-para-expo-camisa-10-moda-futebol.ghtml<\/a> acesso 11 de maio 2026.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> \u00c9 v\u00e1lido retomar a divisa publicit\u00e1ria \u201csou brasileiro e n\u00e3o desisto nunca\u201d da ABA (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Anunciantes) que para \u00a0promover a ideia de resili\u00eancia frente aos desafios sociais e econ\u00f4micos, retomou a frase do antrop\u00f3logo e historiador C\u00e2mara Cascudo: \u201co melhor do Brasil \u00e9 o brasileiro\u201d. \u00a0A camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira de futebol possu\u00eda esta for\u00e7a simb\u00f3lica (fig. 6).<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Segundo Ranci\u00e8re (2005, p. 15), a partilha do sens\u00edvel define, simultaneamente, aquilo que \u00e9 comum e as formas pelas quais a participa\u00e7\u00e3o nesse espa\u00e7o do comum se distribui de maneira desigual. Ela organiza espa\u00e7os, temporalidades e pr\u00e1ticas e, desse modo, determina quem pode participar da ordem social compartilhada e sob quais condi\u00e7\u00f5es essa participa\u00e7\u00e3o se realiza.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> The Cashmere Revolution:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/economia\/a-revolucao-da-cashmere\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/economia\/a-revolucao-da-cashmere\/<\/a>; <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/americas-view\/2014\/10\/23\/the-cashmere-revolution\">https:\/\/www.economist.com\/americas-view\/2014\/10\/23\/the-cashmere-revolution<\/a> \u00a0acesso 27 de setembro de 2024.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> <a href=\"https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2014\/10\/midia-internacional-ironiza-marcha-pro-aecio-faltou-champanhe.html\">https:\/\/www.pragmatismopolitico.com.br\/2014\/10\/midia-internacional-ironiza-marcha-pro-aecio-faltou-champanhe.html<\/a> acesso 30 de setembro 2024.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Revolu\u00e7\u00e3o Cashmere:\u00a0 <a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/economia\/a-revolucao-da-cashmere\/\">https:\/\/www.estadao.com.br\/economia\/a-revolucao-da-cashmere\/<\/a> ; <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/americas-view\/2014\/10\/23\/the-cashmere-revolution\">https:\/\/www.economist.com\/americas-view\/2014\/10\/23\/the-cashmere-revolution<\/a> \u00a0acesso 27 de setembro de 2024<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> \u00c9 importante salientar que estes grupos s\u00e3o compostos por empres\u00e1rios ligados \u00e0 ind\u00fastria, ao mercado financeiro, ao agroneg\u00f3cio, ao setor de armamentos e \u00e0s igrejas evang\u00e9licas.<\/h5>\n<h5><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> <a href=\"https:\/\/portalrapmais.com\/djonga-afirma-que-camisa-da-selecao-brasileira-sempre-sera-um-simbolo-da-periferia\/\">https:\/\/portalrapmais.com\/djonga-afirma-que-camiseta-da-selecao-brasileira-sempre-sera-um-simbolo-da-periferia\/<\/a> acesso 28 de setembro de<\/h5>\n<h5>2024.<\/h5>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este ensaio analisa como o discurso da antipol\u00edtica \u00e9 utilizado pela extrema-direita brasileira para construir o modelo de performatividade m\u00edtica a fim de promover o ide\u00e1rio conservador, mobilizando engajamentos no campo do sens\u00edvel. Intuitivamente, ela recorre em suas narrativas \u00e0 ucronia, elemento central no fen\u00f4meno da moda, para fabular temporalidades que fundem presente, passado e futuro. Ao utilizar do mecanismo mim\u00e9tico para instaurar mudan\u00e7as est\u00e9ticas no imagin\u00e1rio social, ela se apropria de algumas estrat\u00e9gias de estiliza\u00e7\u00e3o neofascistas remodelando as sensibilidades para difundir a ideia de renova\u00e7\u00e3o cultural. 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