A performatividade mítica da antipolítica: moda e mimese na extrema-direita The mythical performativity of anti-politics: fashion and mimesis on the Brazilian far right

Este ensaio analisa como o discurso da antipolítica é utilizado pela extrema-direita brasileira para construir o modelo de performatividade mítica a fim de promover o ideário conservador, mobilizando engajamentos no campo do sensível. Intuitivamente, ela recorre em suas narrativas à ucronia, elemento central no fenômeno da moda, para fabular temporalidades que fundem presente, passado e futuro. Ao utilizar do mecanismo mimético para instaurar mudanças estéticas no imaginário social, ela se apropria de algumas estratégias de estilização neofascistas remodelando as sensibilidades para difundir a ideia de renovação cultural. A utilização de elementos míticos relacionados ao ideal nacionalista se torna uma estratégia de distinção ideológica, mobilizando a dimensão estética na ação. A ação vestimentar adquire relevância política no espaço público pela (re)semantização dos objetos, despertando o comportamento mimético na medida em que difunde pautas e convicções particularizadas a respeito de uma nova política que orienta o imaginário cultural brasileiro. Ao longo do artigo, pretende-se analisar como o comportamento mimético, típico do fenômeno da moda, contribui para a reciprocidade emocional animando nas massas o páthos político a partir de linguagens icônicas que apresentam o novo regime de visibilidade da extrema-direita.

Palavras-chave: perfomatividade mítica; antipolítica; moda; mimese

 

This essay examines how the Brazilian far right has used the discourse of anti-politics to construct a model of mythical performativity and promote conservative ideology by mobilizing the dimension of the sensible. Intuitively, it uses uchronia, a central element of fashion as a cultural phenomenon, in its narratives to fabulate temporalities that merge present, past and future. By using mimesis to provoke aesthetic transformations in the social imaginary, the far right appropriates various neofascist stylization strategies, reshaping sensibilities to disseminate the idea of cultural renewal. The use of mythical elements related to nationalism functions as an aesthetic strategy of ideological differentiation in which clothing acquires political relevance in public space through a (re)semantization of objects, eliciting a mimetic behaviour as it disseminates its specific agendas and convictions regarding a new political paradigm guiding the Brazilian cultural imagination. The essay focuses on how mimetic behaviour, typical of fashion as a phenomenon, contributes to establishing emotional reciprocity by encouraging political pathos among the masses through iconic languages that present the new regime of visibility of the far right.

Keywords: mythical performativity; anti-politics; fashion; mimesis

 

 

Outra fruição (outras margens): ela consiste em despolitizar o que é aparentemente político, e em politizar o que aparentemente não o é. _ mas não, vejamos, a gente politiza o que deve ser politizado e é tudo. Roland Barthes

 

Barthes (1999, 58) diz que toda escolha política é forma de fruição. Ele utilizou a ideia de fruição não somente para estudar como as palavras constroem sentidos, mas, sobretudo, para pensar como os sentidos constroem a vida. Esses sentidos, de acordo com o contexto cultural e o instante dos acontecimentos históricos no tempo, deslocam a experiência da fruição para outras margens que, como ele mesmo diz, podem se fixar à direita ou à esquerda. Isso delimita os contornos do sensível que determinam o gozo, a perda, a fenda, o corte ou a deflação. Trata-se, neste caso, de se observar o estado sutil da formação dos discursos. Como explica Barthes (1977, 21), a escrita é constitutiva no fenômeno da moda porque fora da palavra não há moda total, não há moda essencial. O vestuário real constrói uma rede de sentidos da moda essencial e isso se deve ao fato de a moda estar além do vestuário. Ela se situa no imaginário coletivo na medida em que se constitui como imagem ou como fenômeno social. A palavra da moda, que visa atuar no imaginário com o objetivo de modelar os costumes e a aparência, é a primeira reação imediata dos seus signos. Investir o corpo de signos estimularia o confronto com a alteridade estimulando as correspondências para a produção de sentido e significações. Quando o vestuário é investido pela palavra política, ele nos conduz a uma experiência transgressiva do texto nos levando para a outra margem: a fruição.

O estudo da dimensão política do vestuário, a partir das pautas da extrema-direita, nos dá pistas para compreender que a fruição de significado das coisas, das imagens e dos objetos pode se impor como um jogo do sensível no qual o sentido não está garantido e nem é fixo. O vestuário-real da extrema-direita constrói uma língua e, a partir dela, uma gramática que institui as normas sintáticas de comunicação. Dessa nova língua, derivam as estruturas da sintaxe morfológica que atualizam comunicação vestimentar, transformando-a em um acontecimento histórico.

Há mais de uma década o Brasil está sob os efeitos da fabricação mítica da história. A  extrema-direita brasileira utiliza o termo guerra cultural para instaurar um novo ideário relativo à produção de narrativas [1]. Por este motivo, nós podemos comparar este fenômeno a um modelo da chamada cauda longa da moda (Anderson, 2006). A principal característica deste fenômeno é disseminar ideias pela noção do contágio, exercendo um tipo de monopólio no processo comunicativo semelhante  às estratégias das guerras químicas ou biológicas. A disseminação de conteúdos da chamada “pauta de direita” se dá pela intensa utilização de dispositivos de alta capilaridade para a difusão de informações, alimentando potencialmente o mercado do vestuário pela venda de diversos objetos que portam mensagens rápidas e de fácil assimilação. O exercício de estilo nas manifestações da extrema-direita reativa projetos de reforma social próprios de regimes totalitários, configurando uma “utopia regressiva” que instrumentaliza afetos do passado, elevado, aqui, à condição de mito glorioso para sustentar crenças ideológicas no presente e fabular o futuro político do país. [2] A roupa seria um dos meios de disseminação deste ideário conservador, mas igualmente os acessórios, como por exemplo, o boné utilizado por Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024 cuja mensagem dizia: “make America great again” (MAGA).

Recentemente, popularizou-se o termo “batalha dos bonés” devido ao fato do acessório ter sido utilizado por políticos para comunicarem ideias a respeito de suas convicções políticas [3]. Uma T-shirt é um suporte importante porque, além de seu baixo custo de produção, ela propicia a estigmergia das mensagens por intermédio da prática do do it yourself (DIY). É neste lugar fora das instituições, dos fatos e das narrativas oficiais (reais) que as dissonâncias cognitivas reconfiguram a história. A camiseta e demais objetos do vestuário se tornam uma página em branco na qual a fruição da palavra política se potencializa. A instrumentalização do vestuário é uma estratégia eficaz porque ela mobiliza o fenômeno da moda e, a partir dele, a dimensão gregária. É pelo processo de mimese que a propaganda se torna um dispositivo eficaz de propagação da ideologia. Bruneteau e Hourmant (2022) defendem que a moda possui uma força narrativa eficaz na difusão das práticas coercitivas por doar ao vestuário um papel político importante ao mobilizar corpo, estética e distinção. Esta operação é fundamental para produzir e reproduzir ideologias de grupos dominantes contribuindo efetivamente para partilha de um sentimento de unidade pela ideia de uma identidade coletiva. A moda se torna, portanto, um campo em que agentes disputam ideias ou as consomem compartilhando-as massivamente. Conforme Adverse (2024, p.365), a moda expressa como a práxis criativa e o pensamento são impactados por estratégias de ações orientadas pelos acontecimentos históricos. Os estilos estão associados aos modos de existência que transformam a vida cotidiana e, para Macé (2016, p.35), ele seria responsável por formar um senso de comunidade estruturando uma ética e uma política. O mimetismo provocado pelos fenômenos de massa, dentre eles a moda, engajam os valores que alicerçam a noção de uma partilha de experiências e de uma vida em comum. Gustave Le Bon (2018, p. 62) afirma que a imaginação das multidões se constitui quando as ideias passam a se fundamentar em imagens. O autor denomina esse processo de “ideias-imagens”, isto é, construções simbólicas capazes de organizar o espírito crítico e de se converter em discursos compartilháveis no âmbito coletivo. A cultura do vestir pode ser compreendida sob essa perspectiva, uma vez que se configura como uma forma de comunicação não verbal que sintetiza, no campo ideológico, a maneira pela qual um povo imagina e representa a si mesmo. Nesse contexto, a extrema-direita se apropriou da camisa da seleção brasileira como dispositivo simbólico de uma política afetiva que, segundo Paolo Demuru (2024), revitalizou o ódio ao adversário político por meio de uma ação vestimentar. O agenciamento de objetos do vestuário cria uma outra margem da política a partir da capacidade de manipular os signos pela semântica da aparência. Nesse caso, a aparição do sentido que se faz presente nas roupas provoca uma intervenção na realidade, criando um jogo de visibilidade pelo estilo na cultura do vestir. Compreendemos a outra margem como o lugar, por excelência, onde se produz a ideologia. A ideologia transfigura a fruição em experiência mítica, fazendo abrir uma fenda na verdade.

Estes pontos são fundamentais para compreendermos as formas contemporâneas da antipolítica no Brasil, ressaltando, em particular, a produção da linguagem da extrema-direita brasileira. A partir da apropriação da camiseta da seleção brasileira de futebol, os apoiadores da classe política que representa o projeto da extrema-direita mobilizam os afetos que externalizam, por intermédio do esporte, as distensões e conflitos do nosso espaço social. Em particular, pela forte cisão dos debates públicos em torno de temas como inclusão social, racismo e gênero, expressando os avanços ou retrocessos no processo de modernização social do país. Como relata Rodrigues (2024, p.242), o futebol representa a formação do imaginário social brasileiro, logo, ele está profundamente associado  aos valores que erigem a identidade nacional. Atualmente, há, no espaço social uma busca pela afirmação de valores que possam representar uma ressignificação de uma pretensa mentalidade nacionalista a partir de valores conservadores que contextualizam as pautas da extrema-direita como a defesa pelos valores da família, de uma orientação cristã relacionada aos valores das religiões neopentecostais, como por exemplo, pela defesa da divisa em forma de oração:  Brasil acima de tudo. Deus acima de todos! [4]Portar a camiseta da seleção brasileira se torna, eminentemente, um jogo especular entre o grupo que mimetiza e replica os valores que representam a defesa de uma tradição. Esta ação adentra a cultura da moda porque  expressa a formação do ethos cultural dessa comunidade. Nesse contexto, o uso da camiseta da seleção brasileira se transforma em um jogo especular de identificação coletiva, no qual determinados grupos mimetizam e reproduzem valores associados à preservação de uma tradição orientada pela manutenção de princípios morais conservadores. A camiseta verde e amarela forja simbolicamente a linguagem conservadora em contraponto ao desenvolvimento de uma agenda woke que, segundo a ideologia política apresentada pelos partidos da extrema-direita, orientam a formação das mentalidades por projetos progressistas da esquerda que enfraquecem a noção de uma família nuclear pregando a equidade entre gêneros. Apesar da dimensão abstrata da apropriação da camiseta da seleção brasileira de futebol, o que está em questão foi o fato de a camiseta já ter sido utilizada para repensar as políticas culturais no país. Para Ribeiro e Silva (2023, p.72), o universo do futebol se revela como espaço privilegiado para problematizar as questões de grupos historicamente marginalizados [5]. Por este motivo, o projeto de design tem criado diretrizes para vinculá-la em diferentes gerações à expressão da identidade brasileira. A partir do fenômeno da moda, examinamos como atributos imagéticos da camiseta da seleção que são utilizados para instaurar outras experiências do sensível no imaginário coletivo. A apropriação da camiseta da seleção brasileira de futebol tornou-se  estratégia de difusão do ceticismo frente à cultura democrática. A estratégia é clara e difundida abertamente: romper com a velha política. Como resultado, o jogo de sentido rompe com o páthos da distância compreendendo o real às avessas ao transfigurar a crise do presente em utópica fabulação de expectativas para o futuro.

A moda e a política do sensível: mimese, tempo e mito

O Brasil vivencia uma batalha pelo domínio das sensibilidades numa tensão contínua entre as margens direita e esquerda. Conforme Nunes (2022), a esfera discursiva mobilizada tanto pela direita quanto pela esquerda se estruturou, nas últimas décadas, a partir de dinâmicas que integram performance identitária e mobilização de afetos. Para além do sentido de polarização constantemente empregado pela mídia brasileira, o autor chama atenção para o abalo simbólico produzido nos esquemas valorativos produzidos pelas experiências subjetivas dos grupos diante da crise política e social após o Golpe de Estado em 2016.

No Brasil contemporâneo, as divisões entre direita e esquerda podem ser compreendidas a partir da articulação de matrizes discursivas que operam simultaneamente os planos simbólico, afetivo e corporal. À direita, continuamente há uma contradição entre os ideais liberais e as pautas conservadoras. De um lado, se acentua o pensamento neoliberal a partir do qual o Estado mínimo reforça a noção do empreendedorismo individualizante movido pelo o libertarianismo econômico e pelo anticomunismo. Por outro lado, as demandas da extrema-direita brasileira revelam uma tensão persistente em torno do controle do Estado, por meio do qual o plano religioso orienta a retórica dos costumes e sustenta a preservação de uma tradição cultural conservadora. Embora heterogêneas, tais vertentes convergem na produção de uma subjetividade política ancorada na valorização da experiência pessoal, na desconfiança em relação às mediações institucionais e na construção de inimigos políticos. A matriz discursiva da esquerda se sedimentou pela afirmação de valores que defendem as pautas concernentes ao reconhecimento de direitos sociais, ao direito das minorias e à regulação das desigualdades para se combater os processos de exclusão como um horizonte mais amplo de transformação social.

Para Nunes (2022), a regularidade das experiências vivenciadas sedimentou esquemas valorativos que explicitam as tensões decorrentes das interações provocadas pelo compartilhamento de ideias. A direita utiliza uma discursividade de cunho troll, por meio de provocações polêmicas e controversas, difundidas em massa pela fake news e pelo uso intensivo de inteligências artificiais. A esquerda, de outro modo, potencializa o campo da cultura e opera por meio de dispositivos estratégias discursivas para  afirmar as pautas progressistas visando a transformação das mentalidades. Como consequência, a arquitetura dessas discussões se desloca do campo social para plataformas específicas de interação, reforçando dinâmicas de filtragem como parte da ação política.

A mobilização de artefatos culturais passa a definir a performatividade cênica das margens (direita x esquerda) estimulando a hipervisibilidade midiática. O sensível se tornou um horizonte de disputas simbólicas que visa produzir a verdade. A difusão em massa de textos, ideias e imagens fomenta o engajamento de produtores e leitores em outro regime de fruição. Se a politização de tudo nos conduz à outra margem da fruição do texto, ela também engendra a perda do significado. Diz Barthes (1999, 56): “repetir até o excesso é entrar na perda, no zero do significado”. A crise do sensível revela o esgotamento dialógico e discursivo das mensagens, gerando uma espécie de transe ao fundir vertiginosamente  a realidade e a ficção.

Demuru (2024, 23) descreve o sistema vestimentar da extrema-direita como “roupas simples” pelo fato de seus militantes conseguirem transfigurar o sentido da camiseta da seleção brasileira de futebol em ícone da identidade nacional. No entanto, a relação do sentido produzida pela extrema-direita não é tão simples quanto se apresenta porque, a partir da apropriação estética do vestuário, a extrema-direita transfigura uma série de símbolos da cultura brasileira. Barthes (1977, 19) denomina esta mudança de leitura e de uso dos objetos vestimentares como prova de comutação. Pelo intermédio da variação de sentido no processo de fruição do uso dos objetos do vestuário, profundas mudanças cognitivas são produzidas no imaginário coletivo. Sobretudo porque a moda seria um importante dispositivo de produção de mitologias, em particular, pelo fato de ser um fenômeno de alteração da consciência em relação à percepção do tempo e da narrativa histórica.

Benjamin (2006, 20) nos lembra que a sensação da mudança do tempo e da história desencadeada pelo fenômeno da moda seria uma forma onírica do acontecimento. A moda introduziria no seio da sociedade moderna um modelo narrativo capaz de alterar a produção de significados dos fatos percebidos pela alteração da memória. A moda teria o poder de modelar as consciências pela influência que exerce nas mentalidades. Ela altera as narrativas para atualizá-las continuamente no presente e para o presente. A partir disso, ela transfigura um fato histórico em mitologia ao sobrepor a dimensão onírica da fantasmagoria sobre a realidade. Trata-se de provocar uma fruição no instante vivido arrancando as coisas do tempo para situá-las à margem e, pelo olhar do encantamento, alterar a percepção do real. Demuru (2024, 13) utiliza o termo política do encantamento para examinar um fenômeno semelhante na produção das narrativas conspiratórias da extrema-direita. Por estarem cientes do papel do encanto na vida pública, os militantes extremistas apropriam-se de linguagens para colonizarem o sensível com fins ideológicos. O objetivo é claro: produzir uma modificação do sentido e dos significados culturais na produção da memória para alterar a história transformando-a em narrativa mítica.

No centro desta disputa, vemos ser fragilizada a compreensão conceitual e espiritual do sentido de cultura. Para Arendt (1992, 281), a cultura consiste em uma atitude de respeito, de cuidado, de preservação e de admiração das coisas do mundo: “alguém que soubesse como escolher sua companhia entre homens, entre coisas e entre pensamentos, tanto no presente quanto no passado.” Para Starling (2018, 14) este é um método de Arendt para lidar, em situação de crise, com os acontecimentos inapreensíveis. Então, recorria ao passado para pensar com ele, sem se resignar à nostalgia e sem ser dominada pela ilusão cronológica da repetição. Talvez nos seja necessário olhar para o passado para que se compreenda um pouco mais sobre as crises relativas à nossa sensibilidade diante da cultura.

A moda, por estar atrelada à temporalidade de alguns mitos relacionados ao eterno retorno, segundo Benjamin (2006, 104), visa alimentar a produção mítica de narrativas objetivando alterar o fluxo temporal dos discursos. A estratégia da repetição em looping é condição sine qua non para a atualização contínua de suas pautas. Com isso, o que poderia ser um acontecimento transitório, torna-se um fenômeno de longa duração. Tal como a cauda longa analisada por Anderson (2006, 11), que se caracteriza pelos acontecimentos provocados pela internet que impactam os costumes do presente transformando os hábitos sociais. A indústria da informação cultural conectou pessoas e ideias em rede criando uma poderosa malha de difusão de ideias. Os trend topics das redes sociais é o exemplo mais concreto desta dilatação dos fatos e do tempo presente, eles sincronizam efetivamente os fenômenos e epifenômenos da sociedade. O fenômeno da moda está presente na tecedura desta malha porque difunde as ideias mimeticamente. Ele estimula a temporalidade cíclica assumindo, por vezes, a força das narrativas mítico-miméticas. Benjamin (1994, 110) associa o comportamento mimético da moda à temporalidade cíclica do mito. Segundo ele, o poder mimético do fenômeno da moda desencadearia no imaginário coletivo o mesmo êxtase provocado pelos narcóticos. Isso se explica pelo encantamento provocado pela fruição do mito ao repetir excessivamente o ciclo do tempo, apagando a distinção entre o passado e o presente. A mimese erigida pelo fenômeno da moda altera o processo perceptivo de modo a transformar em encantamento o saber sensível produzido pelas imagens. Dentro de uma dimensão metafísica, o fenômeno da moda seria compreendido por Benjamin (2006) como uma experiência do sensível determinada pela íntima relação entre o sujeito e as coisas. Tal experiência chegaria a abolir as fronteiras entre as palavras e as coisas, a ponto de transformar imagens em palavras e as palavras em objetos, revelando assim o caráter mágico e mítico da linguagem da moda.

Essa concepção benjaminiana repousa na ideia do domínio mitológico da moda sob a história, pois a faculdade mimética foi compreendida por ele como um tipo de caráter experimental da linguagem vinculado à constelação temporal. Para Benjamin (2006), as experiências da moda na nossa sociedade representariam as fantasias miméticas dos elementos da história, produzindo imagens oníricas no inconsciente coletivo. O passado seria reformulado pela energia mimética da moda, alterando a memória social. Barthes (1977, 271) percebe, neste cruzamento temporal efetuado pela moda, o assassinato declarado do passado. Compreende a ambiguidade ética do fenômeno da moda pela forma como ele ativa novos modelos de esquecimento, determinando a atualidade como uma arbitrária da experiência do tempo.

Esta naturalização do esquecimento é responsável por mitificar a sincronicidade dos signos do vestuário. Por reinventar o passado, encantar o presente e fabular o futuro, a moda instaura a ucronia como imperativo temporal, ativando a percepção do tempo como ficção. O eterno retorno instaura a mimese como um tipo de percepção consciente das correspondências entre o passado e o presente. Nesta perspectiva, o fenômeno da moda representaria um dos modos de aplicação da faculdade mimética por abrir, no domínio das experiências de produção de sentido, uma forma de comunicação corpórea entre o sujeito e as coisas mundanas. Este seria o momento no qual a fruição do sentido encontraria na corporeidade do médium o dispositivo ideal para partilhar as experiências, o que explica a semelhança entre o comportamento da extrema-direita contemporânea e os fascistas do início do século XX. É importante observar que, na medida em que Benjamin apresenta o sentido de médium, ele recorre a uma faculdade que, por intermédio da capacidade cognitiva da consciência, percebe conscientemente as semelhanças. A mimese seria uma orquestração do saber sensível que orienta princípios de mudanças estéticas a partir de modelos, erigindo conhecimento técnicos e poéticos por intermédio de outras maneiras de fazer, ver e julgar.

Compreendendo esta crise do sensível a partir de Rancière (2005, 31), nós podemos também tangenciar algumas questões a respeito da experiência mimética relacionadas às partilhas estéticas. A produção de semelhanças seria uma das formas da ação criativa, não sendo apenas uma imitabilidade, pois a imitação não é semelhança, nem reprodução. A mimese seria o desdobramento das formas de criação para se emancipar determinadas práticas criativas. E, por isso, ela tem forte influência sobre o ser do sensível. O sensível seria o elemento que guardaria em si mesmo tanto a potência do pensamento quanto a do páthos. Ele teria, de acordo com Rancière, a capacidade de implodir a barreira mimética afirmando novas singularidades do regime de representação. Lembra-nos Coccia (2010, 58) que a mimese definiria a nossa sensibilidade de reconhecer e diferenciar experiências. A capacidade de nos reconhecer em uma imagem seria aquela que nos permite, segundo Coccia, ser absorvidos pelo sensível. O que significa, de fato, que todo vivente é, antes de tudo, uma aparência, uma forma, uma imagem, uma figura (espécie). Assim, a vida estaria relacionada com um modo de presença, de aparência e de aparição.

As primeiras manifestações da produção de sentido unificando a cultura do vestir à ação política no Brasil tiveram o propósito de fazerem reconhecer as semelhanças dos ideais republicanos [6]. Narra Starling (2018, 217) que, no Brasil, o ímpeto revolucionário se tornou escandaloso pela mimese do traje revolucionário francês elaborada pelo alfaiate João de Deus: “pés metidos em vistosos chinelins com bico muito comprido e calções apertados”. Ele funcionava como um signo republicano, definindo publicamente uma maneira do indivíduo se tornar distinguível no espaço público. Sob a divisa apareça, não se esconda a Conjuração Baiana (1798), também conhecida como Revolta dos Alfaiates, foi a expressão brasileira de como a palavra poderia fazer fluir na materialidade do têxtil uma convocação para que escravizados e mestiços se engajassem em um movimento de transformação social. Concluímos que o caráter experimental da linguagem do vestuário transforma a cultura do vestir em saber sensível com o intuito de assumir um papel ativo na luta pela liberdade. A presença, a aparência e a aparição afirmariam o princípio político da pluralidade (Arendt, 2002) porque tratariam não só da capacidade de reconhecer as semelhanças, mas de produzir a convivência entre os diferentes.

Antipolítica e performatividade mítica: estratégias neofascistas e a moda

Na contemporaneidade, a formação do discurso da antipolítica está intimamente associada a performatividade mítica. Ela é responsável por provocar uma ruptura com o páthos da distância [7].O discurso de liderança se constrói por um jogo de verdades baseado na produção de mitologias com o intuito de transformar a ideologia em alternativa para as diversas crises que enfrentamos. Logo, se um discurso produz tanto ideias quanto sujeitos, o que estaria em questão seria o modo de presença próprio à latência do mito. A partilha de significados produzida em rede seria o exemplo da fruição de sentido nesta outra margem da política. Esta experiência não só estimula a mentira, mas transfigura em verdade histórica o que é ficção. Como exemplo, as estratégias de montagens de IA que manipulam cenas, os atores da cena política e o agenciamento simbólico de objetos para lhes doar novos sentidos.

Demuru (2024, 43) utiliza a ideia do transe para representar inúmeros exemplos destes sentidos compartilhados socialmente, como vimos na ação de bolsonaristas que, convencidos de que a eleição de 2022 no Brasil havia sido fraudada, invadiu o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional (fig.1), devastando as obras de arte, os mobiliários e demais símbolos do patrimônio cultural brasileiro. Arantes, Frias e Meneses (2024, 82) compreenderam esta ação como um tipo de “performance animalesca” em resposta à insígnia o poder emana do povo representada pela imagem da posse do presidente Luís Inácio da Silva em janeiro de 2023 [8].

De acordo com os autores, a “dissonância cognitiva” conduziu a interpretações equivocadas por parte da extrema-direita, intensificando a produção de ataques aos símbolos do poder e da cultura brasileira. Grande parte dos manifestantes portava a camiseta amarela da seleção brasileira de futebol, explorando-a como um signo de defesa do nacionalismo brasileiro. Ademais, tanto a ação devastadora quanto a ideia de utilizar tecidos nas cores verde-amarelo no rosto, eram uma mimese da ação dos chamados Black blocs. Arantes, Frias e Meneses (2024, 110) os descrevem como green-yellow bloc patrióticos (fig.2), e afirmam que eles sequestraram as táticas da extrema-esquerda não para promover um atentado contra o capital [9], mas para disseminar uma imagem performativa do seu ideário mítico da pátria, do povo e da nação.

Fig. 1. Invasão do Congresso Nacional, 8 de janeiro de 2023 – Foto: Gabriela Biló, Folhapress, Brasil

Fonte: https://folhapress.folha.com.br/fotos?site=folhapress&skin=folhapress&content_search=Gabriela+bil%F3+8+de+janeiro&content_search_type=content&content_type=photo&content_date_at=&content_date_start=&content_date_end=&clean_date=no acesso 21 de julho 2026.

Pela mitologia, o sensível é controlado, as distâncias são atenuadas e as diferenças apagadas. O mito provoca tanto a coesão quanto a mobilização dos sentidos porque ele restitui a ideia do poder descentralizado e presente em qualquer lugar, qualquer fala e qualquer discurso. A mobilização da vontade de poder no imaginário social ganha apelo junto às massas na medida em que transforma o ideal democrático em moda, consolidando a falsa ideia de liberdade de expressão e de autonomia política do sujeito. É exatamente neste ponto que a mitologia se funde à noção da performatividade[10], porque ambas agitariam o ideal revolucionário apostando na crença liberal.

Fig. 2. Infográfico Fashion do Revolucionário Pacífico (sem autoria) e manifestantes patriotas, 2024

Fonte: Acervo da autora

A performatividade mítica da extrema-direita implicaria em fazer crer que qualquer a ação ou discurso poderia alterar o curso da nossa história a partir da transformação das mentalidades. Afeitos aos conflitos, os ativistas da extrema-direita utilizam os signos vestimentares para viabilizarem a marcação das distâncias, animando o páthos político por meio de mensagens icônicas: “meu partido é o Brasil”, “Deus, Pátria, Família, Liberdade, Verdade”, “Brasil acima de Tudo, Deus acima de Todos”, “Fora Lula”etc (fig.3).

Adverse (2018, 66) analisa que a antipolítica pode remeter, por um lado, às formas de resistência ao poder governamental e, por outro lado, às atitudes destrutivas frente aos pressupostos fundamentais da vida em comum. Dentre as definições apontadas por ele, destacam-se o entendimento da antipolítica como um discurso político que se manifesta sobretudo sob a forma da derrisão, da espetacularização, da moralização, da tecnificação e da judicialização. Em situações cotidianas, a antipolítica poderia ser representada pela palavra da moda, reconfigurando-se sob a forma da espetacularização e dos estilos adotados pelos patriotas nas manifestações populares. As revoltas, as insurgências e revoluções nos permitem observar o vestuário sob diferentes perspectivas da antipolítica porque a palavra da moda replica potencialmente as ideologias. A extrema-direita brasileira apropria-se do uso de estratégias de estilização dos corpos como uma forma de resistência às pautas progressistas. A linguagem plástica do seu sistema vestimentar reproduz excessivamente as mesmas divisas relacionadas a ideia de identidade-nação, separando os gêneros para reafirmar os valores tradicionais da família brasileira.

Fig. 3. “Meu Partido é o Brasil”, Réplicas das Camisetas da Seleção Brasileira de Futebol, Belo Horizonte, 2024

Fonte: Acervo da autora

Quando comparamos o fenômeno da extrema-direita às tendências de moda de longa duração, nós apontamos para o fato de que há mais de uma década a morfossintaxe do vestuário é repetida. A imitabilidade e as cópias refletem a reprodutibilidade dos códigos simbólicos: o uso da bandeira nacional como capa ou como uma echarpe, a reprodutibilidade dos códigos simbólicos da cultura de massa advindas da estética gamer, o uso dos símbolos militares, de estampas camufladas ou de peças clássicas com cortes rígidos que exploram a disciplinarização dos corpos, todos aparatos técnicos semelhantes ao projeto estético-político explorado exaustivamente pelo fascismo, pelo nazismo e pelos regimes totalitários ou populistas da extrema-esquerda.

A estratégia estética é modelada pela “percepção tátil” (Benjamin, 1994, 183) para que a exposição de temas políticos seja imediata e para que tudo possa ser “mostrável” determinando, consequentemente, uma forma de controle sobre o sensível. A recepção tática e a recepção ótica explicitam a transformação do processo perceptivo da mensagem política. Orientada pelo choque, a produção de sentido se transforma no próprio espetáculo, consolidando o ímpeto de rebeldia como um tipo de distração do juízo crítico. Este processo perceptivo abre caminhos para outras formas da antipolítica porque substitui a produção de sentido pela paixão instantânea desencadeada pelos diferentes afetos como a frustração, o desencantamento, a crença em ideologias religiosas ou morais etc. O fenômeno da moda sustenta, em parte, a customização desses afetos e o ritmo dos gestos, uniformizando o comportamento mimético do grupo a partir da padronização do corpo social (fig. 4).

Fig. 4. Manifestação na Avenida Paulista em defesa do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, 2016 Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Fonte: https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:ManifestaçãoemSãoPaulo acesso 30 de setembro 2024.

A ideia seria, de acordo com Matard-Bonuci (2022, p.20), repensar a função utilitária do vestuário dentro de uma política de manipulação das massas com o intuito de separar e estigmatizar a simbólica na cultura do vestir. O vestuário adquiriu um papel fundamental nas manifestações cênicas do fascismo integrando de forma singular o plano de estetização da propaganda política. Com isso, operar-se-ia uma desestabilização do lugar do sujeito na produção do sentido discursivo da sua imagem. A mitologia e a ideologia seriam responsáveis por fixar a experiência mimética para regular tanto a experiência sensível do pensamento quanto os modos de existência estéticos.

Paulicelli (2004) compreende que dentro das políticas totalitárias há uma captura iminente do imaginário estético que força uma injunção do ideário mítico sob aparição pública de uma identidade-nacional com o intuito de se unificar o corpo social, eliminando as divisões e dissidências culturais existentes. Dessa maneira, criam-se uma gramática e uma sintaxe vestimentares por intermédio das quais se estrutura rigidamente o sistema ideológico. O mimetismo plástico e cromático organiza a paisagem política e cultural, homogeneizando as aparências a fim de dar visibilidade ao pensamento político dominante. O papel do vestuário é estratégico porque ele modela o ideal político erigindo uma paisagem humana figurada pela identidade nacional difundida em massa. A identidade política nacional suscita uma associação metonímica reforçando a ideologia como ícone explicito desta determinada forma de poder. A relação entre a moda e a política (da extrema-direita ou da extrema-esquerda) nos deixaram importantes lições a respeito da estilização dos corpos como um tipo de dispositivo de controle da produção de subjetividades.

Com camiseta, sem camiseta: o parlamento mítico das ruas

Há cem anos a camiseta da seleção brasileira foi criada, sendo derivada das referências do uniforme inglês de futebol. Gradativamente, o modelo foi se adequando à nossa cultura até se distanciar do estilo europeu. Dentre as modificações se destacam as variações em torno da modelagem, dos materiais e dos detalhes de acabamentos, dentre eles, a retirada de elementos que a associavam ao estilo do uniforme dos atletas do Tênis. A intenção foi popularizar a imagem da seleção. A afirmação mitológica da camiseta estaria associada  à vitória da seleção na copa de 1958. Devido à recusa dos jogadores utilizarem a camiseta branca na final, a confederação encomendou novos uniformes azuis para os jogadores. Paulo Machado de Carvalho associou a cor azul ao manto da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida, com intuito de se criar um laço entre o divino e o profano no domínio esportivo. Com a vitória da seleção, esta narrativa foi difundida de modo a expressar um tipo de sacralidade da camiseta, difundindo a ideia de que ela representaria os traços simbólicos mais sagrados da cultura brasileira. Em sua crônica para jornal Correio da Manhã, Carlos Drummond de Andrade (2012) remonta a ideia de que a camiseta da seleção seria um símbolo da cultura brasileira:

Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica. Indica valores morais e eugênicos, saúde de corpo e de espírito, poder de adaptação e de superação. Não se trata de esconder as nossas carências, mas de mostrar como vêm sendo corrigidas, como se temperam com virtualidades que a educação irá desvendando, e de assinalar o avanço imenso que a nossa gente vai alcançando na descoberta de si mesma. (Andrade, 2012, 37)

Esta retórica foi incorporada à camiseta ao longo de décadas, sistematizando o mito de que o artefato representava o despertar da autoconsciência cultural, representando a unidade do povo e da nação brasileira. Barthes (1977, 267) compreende esta retórica vestimentar como uma fabulação que funde o real e o imaginário a partir de um objeto ordinário do cotidiano. Para ele esta atividade de conversão mobiliza causas e efeitos em símbolos, produzindo uma realidade utópica. A adoção da camiseta, como um símbolo de resiliência e de triunfo da cultura brasileira, torna-se uma ideologia na medida em que mitifica a realidade social como um tributo desta utopia real. Salienta Barthes que o léxico vestimentar não altera a realidade, mas pode se tornar uma utopia real na medida em que se institui como uma narrativa histórica. Pela adesão e pela mimese, o uso da camiseta da seleção se transfigura em realidade, passando a atribuir simbolicamente a produção de sentido construída na vida cotidiana. Portanto, o que as pessoas conclamam ao portarem a camiseta da seleção brasileira de futebol é, para além do amor à camiseta, o atributo de se reinventarem com base na demonstração de uma excelência tipicamente brasileira: a ginga, o drible e o jeitinho brasileiro. Portar a camiseta 10 da seleção não simbolizaria apenas o nacionalismo, mas uma arte de viver relacionada à história do futebol e à experiência do corpo na aparição de sua performatividade mítica.

É consensual, entre as fontes históricas, que houve inicialmente uma tentativa de se elitizar o esporte para gerar distância entre as camadas sociais. Contudo, mesmo após confrontos de classes com ideários racistas, a prática foi gradativamente sendo introduzida nas periferias, com forte inserção entre operários das indústrias e, principalmente, entre os jovens e as crianças dos morros. Em consequência disso, conflituosas discussões foram instauradas no início do século XX a respeito da integração dos negros em círculos sociais da elite para o exercício do esporte. Não nos esqueçamos da marginalização racial ainda presente no futebol e que, infelizmente, ainda em nossa contemporaneidade, assombra os estádios.

O futebol se popularizou no Brasil porque podia ser praticado por um grupo indeterminado de participantes, em qualquer lugar e com artefatos improvisados (um gesto típico da nossa cultura da “gambiarra”). O futebol brasileiro ainda é praticado em qualquer lugar e de modo improvisado. Como no passado, os bairros e as periferias brasileiras estão repletos de “peladeiros”. Os brasileiros jogam futebol com qualquer bola, seja essa uma bola de meia ou plástico, nosso campo pode ser uma rua ou praça, e o nosso gol, pode ser delimitado por um objeto qualquer. Isso se explica a grande difusão do esporte no Brasil, podemos dizer que o brasileiro compreendeu que o elemento mais importante para a prática desse esporte era imaterial. É este elemento imaterial que compõe a mitologia da camiseta da seleção brasileira, o uso da camiseta amarela significou, por muitas décadas, algo observado por Barthes (2001) ao analisar o catch na América e na França: uma espécie de combate mitológico que ora representava o inimigo político, ora poderia representar os atributos éticos do herói ou do vilão.

Poucos meses antes do início da Copa do Mundo de 2014, a camiseta 10 da seleção foi celebrada por exposições, semanas de moda e em mostras do design que tentavam interpretá-la como um símbolo de brasilidade[11]. Para se compreender esta revitalização estética é importante retomar algumas informações referentes à cultura de moda. Ao longo das décadas, o uso da camiseta de futebol se integrou à cultura de moda no Brasil e, nos anos de 1990, as camisetas oficiais dos times de futebol foram incorporadas à cultura do streetwear, em particular, pela influência da música pop brasileira e internacional. Como foi um período de grande produção da indústria do jeans no Brasil, as marcas apresentam as suas coleções e cada uma delas propunha uma leitura semântica das camisetas esportivas do futebol.

Após a derrota na copa de 2014, a camiseta da seleção brasileira foi integrada à voz dos deserdados culturais e o uso da camiseta já não simbolizava uma conciliação nacional que se orgulhava do projeto cultural do Brasil. A camiseta da seleção brasileira passou a não mais representar algo na cultura do vestir que a associava ao orgulho, à resiliência e ao triunfo[12]. Entretanto, dizia Andrade (2002, 25) que o mérito da derrota consiste em isentar o derrotado de qualquer responsabilidade da vitória (frase que pode se referir ao futebol ou às eleições). E, ironicamente, as eleições presidenciais no Brasil têm ocorrido no mesmo ano de realização das Copas do Mundo.

Esta frase de Andrade (2002), que era também cronista esportivo, foi amplamente difundida em 2014. Ela atendia tanto aos interesses ideológicos da direita quanto aos da esquerda, agitando ativamente as partilhas estéticas[13] nas redes sociais. Naquele momento, a emergência do discurso da antipolítica ainda era incipiente, mas já havia uma grande cisão no espaço social brasileiro. Os termos direita e esquerda ressurgiram ativamente, tornando o referencial para designar os grupos mais ávidos por propostas liberais e os outros mais inclinados à proteção social do Estado. O grupo liberal se apropriou da camisa da seleção brasileira de futebol para marcar a sua diferença em relação aos eleitores da esquerda que portavam camisetas na cor vermelha. Deste conflito de ideias, instituíram-se grupos de militância da extrema-direita com graves consequências para a cultura brasileira, dentre elas, a mobilização da força colérica como uma emoção vital para o páthos político.

Fig. 5. Não Vai Ter Copa – manifestação social 2013, Blog Causa Operária –  Captura de tela do Blog.

Fonte:  https://causaoperaria.org.br/2020/por-que-o-nao-vai-ter-copa-foi-um-movimento-golpista/ consulted 30 September 2024

Fig.  6. Frame da campanha da ABA O melhor do Brasil são os brasileiros: Sou brasileiro e nunca desisto, de Adriano Gehres e Jaques Lewkowicz, Agência Lew, Lara, 2005 — captura de tela do YouTube.

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=KYENLJD1eM4  Acesso 30 de março de 2025.

Ao longo do ano de 2014, a camiseta da seleção brasileira foi utilizada como um signo reverso à representação simbólica de resiliência e triunfo constituída ao longo das décadas. Primeiramente, a camiseta da seleção brasileira de futebol foi utilizada nas manifestações das Jornadas de Junho de 2013, durante a Copa das Confederações. A partir da frase “Não vai ter Copa” (fig.5), que foi pichada em muros e compartilhadas nas redes sociais, alguns militantes vestiram a camiseta como um signo dialético. Eles protestavam contra a falta de investimentos em áreas essenciais como a saúde e a educação, criticando os gastos excessivos do Estado para a construção ou reforma dos estádios de futebol. Posteriormente, entre os meses de agosto e outubro de 2014, parte do eleitorado do candidato do PSDB (Partido da Social-Democracia Brasileira), que fazia oposição à candidata do PT (Partido dos Trabalhadores)[14], começou a utilizar a camiseta da seleção brasileira para marcar as diferenças ideológicas frente às pautas progressistas, portando-a como um apoio à política neoliberal do candidato.

As cores verde e amarelo se tornaram símbolos amplamente utilizados tanto pela população quanto pelos candidatos, refletindo convicções particularizadas de pautas da direita política. Em outubro de 2014, a Avenida Paulista foi palco de uma manifestação da direita, apelidada pela revista britânica The Economist como “Revolução Cashmere”[15]. Em um artigo do portal Brasil Debate, Vieira (2014) descreveu os participantes como indivíduos vestidos de maneira elegante, empunhando bandeiras de seus candidatos, enquanto socialites entoavam slogans contra o PT[16]. É interessante observar que, no intervalo de doze meses, este objeto do vestuário foi ressignificado de formas distintas e por grupos políticos diferentes. Ao longo dos meses, a camiseta da seleção, se tornou o símbolo da insatisfação e da revolta de parte do eleitorado tanto da esquerda quanto da direita brasileira. Com a deflagração do movimento de impeachment e com o envolvimento do candidato do PSDB em série de conflitos de interesses e esquemas de corrupção, abriu-se um largo espectro para a ascensão das pautas da extrema-direita no Brasil. É importante salientar que, neste momento, a esquerda utilizou uma divisa muito parecida àquela deflagrada durante as Jornadas de Junho em 2013.

Fig. 7. “Não vai ter Copa”, Protesto contra a FIFA e a Copa do Mundo de 2014, Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br/search?term=Manifestação+contra+copa+do+mundo acesso 21 de julho de 2026.

Do lema “não vai ter copa”, ela passou a defender o espaço democrático por intermédio da frase: “não vai ter golpe” (fig. 8). Em dois anos, alguns grupos de extrema-direita formaram uma frente para discutir e reivindicar uma mudança radical nos modos de percepção e representação da cultura brasileira.

Fig. 8. “Não vai ter Golpe” – Protesto na Cidade de Belo Horizonte contra o impeachment da Presidente Dilma Rousseff em 17 de abril de 2016.

Fonte: Acervo da autor

Após 2016, inúmeros grupos da extrema-direita se reuniam com mensagens violentas inscritas sobre a camiseta da seleção brasileira, acrescentando pautas relacionadas aos costumes religiosos e morais, dentro do espectro de suas narrativas. A partir disso, a camiseta da seleção brasileira de futebol se tornou o símbolo do movimento da extrema-direita brasileira, fidelizando a representação dos interesses de parte da elite[17] e, simultaneamente, engajando outras camadas sociais pela promessa da reforma dos costumes. Esta produção de afetos em torno da camiseta da seleção se acentuou durante as eleições de 2018, tornando-se a imagem de uma luta por um tipo de revolução cultural e espiritual no Brasil. A camiseta se tornou um totem dos ritos do processo eleitoral que, sob a divisa “Deus, Pátria, Família”, do candidato Jair Bolsonaro, era vendida e portada por vendedores ambulantes nos centros urbanos (fig. 9).

Fig. 9. Vendedor ambulante em manifestação no dia 7 de setembro, Belo Horizonte, 2024

Fonte: Acervo da autora

Se pensarmos na morfossintaxe do vestuário analisada por Barthes (1977), a estrutura significante da camiseta amarela da seleção remonta à noção de utopia real porque ela fabula paradoxalmente o ideal utópico da vitória para a cultura brasileira. Apesar de toda vitória ser transitória e ilusória, a camiseta da seleção brasileira carregou consigo a mitologia de uma cultura que soube traduzir, ou melhor, transcriar (à maneira do poeta Haroldo de Campos), uma cultura esportiva europeia. Retomando as palavras de Andrade (2012, 21): “Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga com alma”. A popularização do esporte conta, em especial, com a assimilação daqueles que o jogam nas praias, nas ruas e na alma. Sim, a camiseta amarela da seleção brasileira seria a mitologia da alma da cultura brasileira. Por isso, na linguagem popular, utiliza-se a expressão “amor à camisa” como uma referência ao amor pelo futebol (fig. 10). Esta expressão traduz não somente o páthos e a forma do sensível, ela remonta parte da história da cultura brasileira.

Fig. 10. Réplicas das Camisas da Seleção Brasileira em manifestação no dia 7 de setembro, Belo Horizonte, 2024.

Fonte: Acervo da autora

Durante as eleições no ano de 2018, o rapper Djonga utilizou a camiseta da seleção brasileira de futebol em um concerto dizendo que, apesar da apropriação pela extrema-direita, para a periferia ela ainda significaria a vitória e, nas favelas, ela representaria a resiliência do homem negro[18]. Portanto, sem a camiseta ou com camiseta, o parlamento mítico das ruas tenta definir, à direita ou à esquerda, os limites do visível e do sensível evocados pelo vestuário no cenário político brasileiro. A camiseta da seleção se tornou parte desta consciência, participando desse jogo estilístico de realidades alternativas em que fatos e ficções são continuamente elaborados.

É pela percepção tátil que o jogo contínuo de aproximação dissolve o páthos da distância, contribuindo tanto para a produção de um imaginário repleto de estereótipos sociais quanto para a produção excessiva de mitologias que apagam a distinção entre a realidade e a ficção. Argumento que nos conduz novamente à noção de Barthes (2013, 311) denominada de instância alocutória. Ela diz respeito ao jogo do lugar simbólico na construção dos discursos, explicitando a manipulação política. Como consequência, provoca-se a distorção do real.

Como nos explica Mbarga (2010), quando o vestuário é transformado em linguagem, ele unifica a estrutura tecnológica da sua materialidade à dimensão narrativa da fala aproximando-se da representação social. Com isso, ele indica uma unidade entre história e narrativa. A morfossintaxe da camiseta amarela explicita exatamente esta unidade entre narrativa e história, pois o seu agenciamento afetivo engaja elementos ideológicos diversos, em particular, por investir os corpos de linguagens discordantes que transitam do ressentimento à atitude de resiliência. A tipologia do vestuário estaria sempre aberta às ressemantizações por intermédio do seu uso na história real. Enquanto a palavra estiver liberta para jogo infinito de ressignificações, nós teremos chances de ganhar a partida. E, se perdermos, como Drummond (2012) nos ensinou, recomeçamos de novo: enquanto houver futebol, nós temos chances de sobreviver.

Considerações finais

Este texto teve como intenção pensar em que medida as formas da antipolítica sistematizam o projeto de reforma cultural e espiritual na cultura brasileira, examinando como o fenômeno da moda contribui para difundir a ideologia da extrema-direita. A partir da mimese de ideias e da reprodução excessiva dos códigos simbólicos da camisa da seleção brasileira, observamos como algumas ações performativas se aproximam do ideário neofacista, intentando, por intermédio da construção do discurso da antipolítica, propor uma reforma estilística do corpo social. O fenômeno da moda contribui para a mitificação do novo regime de visibilidade, baseado nos atributos nacionalistas. Pretendemos mostrar que, a partir da fruição das escolhas políticas, a produção do sentido foi deslocada para uma outra margem: o lugar no qual o imaginário é fabulado pela mitologia e pela ideologia. Por este motivo, recorremos aos ensaios de Barthes para analisarmos a fruição do sentido que vincularia a epiderme da moda (a roupa) à trama do discurso político (as ideias), instituindo uma profunda crise no sensível por tentar capturá-lo a partir de técnicas coercivas relacionadas à difusão de ideologias e mitos.

Como Barthes (2001) nos lembra em seu ensaio crítico, o mito transforma sentido em forma, corrompendo a linguagem para empobrecê-la, esvaziando-a da experiência de produção de significâncias. Como o mito é uma fala e a sua discursividade pode ser transformada em plasticidade, tudo pode ser mitificado: uma fotografia, uma imagem, uma reportagem, uma ação, uma roupa. A mitologia se encontra com a ideologia no processo de estruturação das narrativas, postulando uma relação ambígua entre significante e significado, entre história e ficção. A correlação que os une é fazê-los significar algo a partir de uma experiência do sensível e, pela produção de sentido efetuada a priori, fazer algo significar o exatamente o que se deseja que signifique com o intuito de embotar, no plano da experiência, a pluralidade da mensagem e a sua infinidade de sentido. Por isso, a mitologia e a ideologia despolitizam as transformações do sentido, eclipsando a contingência própria à narrativa histórica. A política em sua dimensão mais profunda atua na estrutura das relações humanas e, exatamente por isso, ela pode ser comunicada pela linguagem da moda, sobretudo pela possibilidade de construção coletiva do ideário numa outra margem do mundo.

 

Referências

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[1] Destacamos aqui, a plataforma “Brasil Paralelo” que visa, inclusive, questionar a produção científica e literária da história brasileira, documentando as dissidências ideológicas e os conflitos da construção narrativa de fatos históricos.
[2] Starling (2022, p.100) nos lembra que a mobilização de signos do passado histórico pela extrema-direita no Brasil é um jogo retórico que visa reunir a massa em torno de símbolos ambivalentes para gerar afetos gregários. O objetivo é claro: garantir coesão popular e regular a narrativa histórica do passado pelo esforço sistemático de mudá-la para assegurar a instituição de um ponto de vista reacionário e conservador.
[3] Incluindo o presidente Lula, uma parte do corpo político utilizou o boné azul com a mensagem: “o Brasil é dos brasileiros”. Esta ação foi uma resposta ao fato de que, parte da base que representa a extrema-direita, teria produzido um boné com a mensagem de apoio ao D. Trump em sessões no Congresso brasileiro. Em seguida, a extrema-direita utilizou um novo modelo em resposta à esquerda, inserindo a mensagem “comida barata novamente”, contestando a política de preços e impostos dos alimentos no Brasil.
[4] Na cartilha lançada pelo Partido Liberal (2025, p.6) há uma clara exposição do projeto de renovação cultural baseado em valores associados ao imaginário: “Deus, Pátria, Família e Liberdade”. Neste texto, é possível perceber que os termos utilizados advém de uma linguagem religiosa – a ideia de “edificar uma nação” parte de um propósito teológico a partir do qual se projeta uma nova identidade cultural para o país. https://plmulher.org.br/wp-content/uploads/2025/07/E-BOOK-PROJETO-ALICERCA-BRASIL.pdf
[5] Essa questão se tornou evidente durante o lançamento da nova camiseta oficial da Copa do Mundo de 2026, cujo projeto de moda foi desenvolvido a partir de referências da cultura periférica brasileira. A direção de arte incorporou elementos do streetwear associados às comunidades e favelas, o que intensificou tensões e conflitos sociais no debate público. Nas redes sociais, representantes de partidos de extrema-direita criticaram a proposta estética, classificando-a de maneira pejorativa como “favelável”, em referência à imagem das favelas brasileiras e aos signos culturais vinculados às periferias urbanas no Brasil. https://oglobo.globo.com/blogs/lauro-jardim/post/2026/03/ong-aciona-justica-contra-presidenciavel-que-criticou-favelagem-em-anuncio-de-camisa-da-selecao.ghtml acesso 11 de maio 2026.
[6] O princípio da igualdade foi representado pela reforma do vestuário masculino, pois o uso do terno preto simbolizou o enfraquecimento das estruturas sociais hierárquicas no início do século XIX, como vimos no Dandismo. Quanto ao vestuário feminino, a reforma se fundiu pelos movimentos feministas relacionados ao sufrágio universal. Lembremo-nos da calça Blommer criada por Amelia Blommer.
[7] Barthes (2013, 258) observa a pluralidade da vida em comum pelo estudo da idioritimia, que diria respeito ao ritmo da expansão das ideias na formação política dos discursos. É desta relação tão complexa quanto utópica que Barthes examina as relações de poder na experiência da sociabilidade. A partir da noção nietzschiana de páthos da distância, ele investiga a recriação de jogos semânticos que alteram a produção dos significados. Para Barthes, o problema central da vida coletiva seria regular a distância crítica que estabelece o lugar das coisas, das ideias e das pessoas na vida social.
[8] Análise da editora de moda do Jornal Estado de Minas que questionou a “cena-discurso” em que representantes de diversas camadas sociais que expressavam as minorias passaram a faixa presidencial para  Luís Inácio da Silva (Lula) na cerimônia de posse em 1/1/2023: https://revistaforum.com.br/debates/2023/1/8/essa-gente-me-causou-uma-pessima-impresso-escreve-colunista-sobre-indios-pretos-129822.html acesso 30 de setembro 2024
[9] Consulte o fotolivro Juízo Final: Tentativa e Fracasso do Golpe no Brasil, da fotógrafa Gabriela Biló e do designer Pedro Inoue. A obra erige um manifesto estético que documenta a invasão do Congresso Nacional brasileiro em 8 de janeiro de 2023.
[10] A palavra performatividade diz respeito as práticas e as estratégias adotadas para produzir a expressão de certas identidades sociais ou posturas políticas que erigem as inscrições identitárias, diferentemente da performance, que é uma ação encenada.
[11]  Exposição Camisa 10 em Milão no ano 2014: https://vogue.globo.com/moda/noticia/2014/05/arezzo-recebe-convidados-para-expo-camisa-10-moda-futebol.ghtml acesso 11 de maio 2026.
[12] É válido retomar a divisa publicitária “sou brasileiro e não desisto nunca” da ABA (Associação Brasileira de Anunciantes) que para  promover a ideia de resiliência frente aos desafios sociais e econômicos, retomou a frase do antropólogo e historiador Câmara Cascudo: “o melhor do Brasil é o brasileiro”.  A camisa da seleção brasileira de futebol possuía esta força simbólica (fig. 6).
[13] Segundo Rancière (2005, p. 15), a partilha do sensível define, simultaneamente, aquilo que é comum e as formas pelas quais a participação nesse espaço do comum se distribui de maneira desigual. Ela organiza espaços, temporalidades e práticas e, desse modo, determina quem pode participar da ordem social compartilhada e sob quais condições essa participação se realiza.
[14] The Cashmere Revolution:  https://www.estadao.com.br/economia/a-revolucao-da-cashmere/; https://www.economist.com/americas-view/2014/10/23/the-cashmere-revolution  acesso 27 de setembro de 2024.
[15] https://www.pragmatismopolitico.com.br/2014/10/midia-internacional-ironiza-marcha-pro-aecio-faltou-champanhe.html acesso 30 de setembro 2024.
[16] Revolução Cashmere:  https://www.estadao.com.br/economia/a-revolucao-da-cashmere/ ; https://www.economist.com/americas-view/2014/10/23/the-cashmere-revolution  acesso 27 de setembro de 2024
[17] É importante salientar que estes grupos são compostos por empresários ligados à indústria, ao mercado financeiro, ao agronegócio, ao setor de armamentos e às igrejas evangélicas.
[18] https://portalrapmais.com/djonga-afirma-que-camiseta-da-selecao-brasileira-sempre-sera-um-simbolo-da-periferia/ acesso 28 de setembro de
2024.
Angélica Adverse
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Angélica Adverse é Professora Adjunta da Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade do Estado de Minas Gerais. É doutora e Mestre Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, com período de pesquisa no Institut ACTE, Paris I – Sorbonne. Realizou pesquisa de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente, desenvolve pesquisas sobre a relação entre Moda e Arte, tendo como enfoque a formação do sujeito e da subjetividade na experiência estética. Sua abordagem teórica abrange os campos da história, da estética e da filosofia da arte. Integra o grupo de pesquisa CNPQ - Corpo e Cultura (UFRB – UFBA). É autora dos seguintes artigos: Wrapping an Angel: Zuzu Angel, mourning, and memory in the Brazilian military dictatorship (2025), The Memory of Remains: Sartorial Anarchives as Historical (Dis)Assembly (2025) e Inevitable Face: The Elegant Opacity in the Fabulation of Masculinity (2026). Recebeu alguns prêmios, entre eles o Prêmio CAPES de Tese (2017), concedido à melhor tese brasileira na área de Artes, e o Smirnoff International Fashion Awards (1996), em Toronto - concurso internacional de moda criado em Londres e reconhecido por promover talentos emergentes em mais de 30 países.